LIÇÕES DE UMA MOÇA CHAMADA GENI

Gilberto Gil viu longe quando disse em entrevista recente para este jornal que, ao contrário dele próprio, um tropicalista por ideologia e formação hoje mais interessado em visitar os recantos do País, Chico Buarque e Caetano Veloso eram espécies em evolução. As linguagens de ambos não pararam no tempo, segundo Gil. As explicações que sustentam sua tese são muitas. Quando disse isso, as referências de Gilberto Gil eram discos, não shows. E Chico entra agora na fase de shows, lugar em que as peças do jogo são outras.

O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h08

Por mais cegueira que a idolatria provoque, é saudável reconhecer que os 'gênios' não estão livres dos equívocos. E Chico Buarque também tem os seus, não em maior parte que os acertos, mas tem. A dinâmica dos shows de Chico, talvez pela natureza de canções amparadas na poesia, é linear. Não há ápices provocados geralmente por recursos de espetáculo como volume, usados no palco para envolver a plateia em um parque de emoções.

A exceção é a inebriante versão que faz para Geni e o Zepelim, quando os músicos colocam tudo lá em cima criando uma irresistível parede para reforçar o tema dramático. É não por acaso o momento mais comentado de seu show, mas é único, gerador de uma sensação que se poderia aparecer mais.

Curti-la tanto é sinal de que aquilo que provoca faz falta. A letra é forte e está consagrada, mas é percebida ali de outra forma graças a uma nova postura de arranjos. Geni naquele momento é uma nova canção, como todas as outras deveriam ser todas as noites. O risco que se corre ao abrir mão de recursos de espetáculo como esse é o de deixar a plateia entrar na anestesia e o de fazê-la começar a curtir não um Chico que está ali, vivo, dando vida nova ao que canta em cada apresentação que faz, mas um Chico do disco, um Chico do passado, um Chico da fotografia.

Só poucos nomes conseguem tal carta branca de seu público e conquista uma plateia segura que gritará 'gênio!' antes mesmo de o show começar. Mas não basta. Temos a sorte de vivermos na era de um Chico vivo. E precisamos vê-lo e ouvi-lo como tal.

Crítica:

Julio Maria

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

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