Lições de um grande mestre

A vida musical está definitivamente corrompida pelo culto aos intérpretes. E os músicos? E a música? Como ficam? Aos 84 anos, o compositor Olivier Toni dispara juízos certeiros sobre temas espinhosos. Saudosista, jamais. Muito menos sonhador. Toni é um dos músicos que mais modificaram a paisagem da vida musical em São Paulo no último meio século: fundou e dirigiu o Departamento de Música da ECA-USP; fundou e dirigiu a Orquestra Jovem Municipal de São Paulo, que depois virou a Orquestra Experimental de Repertório com Jamil Maluf; e fundou as orquestras de Câmara (Ocam) e Sinfônica da USP (Osusp). Sem contar o mítico Festival de Prados, em Minas.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2010 | 00h00

Mas Toni é acima de tudo músico notável, que nutre paixão pela prática musical. É memorável vê-lo comandando a Ocam no ensaio final do concerto de sexta-feira passada, na USP. O repertório centrado em Beethoven pode até ser chamado de previsível: a primeira sinfonia e o concerto triplo. Mas a atmosfera me fez lembrar o excelente conceito de "musicking", formulado por Christopher Small: a música precisa voltar a ser feita comunitariamente - e isso inclui o público, que deve sentir-se participante.

O afago nos ótimos três irmãos Brucoli solistas do concerto triplo; e também no adolescente contrabaixista que mora na Penha e leva o instrumento no metrô a caminho da Cidade Universitária, para ganhar R$ 500 mensais; as preciosas dicas para as cordas; a hilária prece para as trompas náo o abandonarem no concerto. Toni é um adolescente no meio deles. Tamanha intimidade reflete-se em execuções não só empenhadas e apaixonadas, mas competentes.

Não são eletrizantes apenas as performances dos superstars clássicos que povoam a vida musical paulistana e tendem a fazer você crer que boa música só existe quando vinda de fora. O recado de Toni é claro: olhemos para a música que nós mesmos produzimos. Ela é muito mais vital do que supomos. Sobretudo quando feita em função não dos egos dos intérpretes, mas em atenção ao compositor e à música. Feita assim, toda música soa viva. Que grande lição deste músico essencial à vida musical do país.

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