Lições de música em pleno front

O sargento Jason Sagebiel serviu no Iraque como fuzileiro naval de abril a outubro de 2003. Era atirador de elite e movimentava-se basicamente sozinho, na dianteira do seu pelotão, abrindo caminho e detectando inimigos.

, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Musicalmente, deve ter sido um dos mais refinados soldados norte-americanos em Bagdá. Estudou na Aaron Copland School of Music e na Universidade Loyola de New Orleans, e sempre atuou como violonista e compositor erudito em Nova York. Já possuía um bom acervo de composições próprias, como quartetos de cordas, música de câmara e peças para violão solo. "Havia poucos outros mariners interessados em música clássica", reconhece Jason em entrevista ao Estado. "Meu amigo Vernon, que estava no meu pelotão, foi meu aluno antes e durante a guerra. Continua a estudar violão clássico comigo até hoje."

A vida era até certo ponto boa no Iraque. Jason arrumou até um professor iraquiano, Ali, que lhe ensinou as escalas arábicas. Em troca, ele passou-lhe os modos diatônicos ocidentais. "Depois de estudar com Ali, senti que minha percepção do mundo tornou-se menor, o mundo pareceu um pouco mais interconectado. Por exemplo, o que chamamos no Ocidente de "modo frígio" é muito popular na Espanha, e com frequência associado à música flamenca. Ora, os mouros lá estiveram por séculos, e a escala arábica de Ali é nada mais nada menos que o modo frígio. Só que Ali o chama de escala curda. Agora, só falta eu ter que perguntar aos curdos como eles a chamam."

Outra descoberta interessante que Jason revela divertido: "Enquanto no Ocidente nós desenvolvemos a música do ponto de vista harmônico, os árabes e iraquianos desenvolveram a deles melodicamente, num sistema de mais ou menos 170 modos diferentes. Eles me gozavam porque nós só temos uma escala - e ainda por cima as escalas maior e menor são essencialmente as mesmas, e nossas diferentes tonalidades são só transposições."

Uma das frases mais emocionantes de Jason foi esta: "Ali tinha consciência de que éramos amigos só porque éramos ambos músicos. Ele acreditava que o coração de todos os músicos está conectado e fala a mesma linguagem."

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