LIÇÕES DE INVENÇÃO E REFINAMENTO

Brad Mehldau eleva sua produção a um grau ainda mais sofisticado em novo CD

O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h08

Ele completará 41 anos no dia 21 de agosto de 2012. Surgiu na cena jazzística na década de 90, com uma série de CDs intitulada The Art of the Trio. Seus textos, reflexivos e às vezes bastante técnicos, revelaram um pianista que não pensava estritamente em jazz, mas na música como um todo. Brad Mehldau vem alargando suas perspectivas nos últimos anos: como pianista, investe cada vez mais nas apresentações de piano solo improvisadas. Mostrou, num memorável recital ano passado na Sala São Paulo, a quantas anda seu maravilhoso percurso de criação espontânea. Os temas, que antigamente colhia sem cerimônia tanto no jazz quanto no pop, já não têm quase importância em suas criações. Importa mais trabalhar com fiapos melódicos, rítmicos ou harmônicos e "viajar" para longe.

Sua condição de músico completo, que teve sólida formação erudita, leva-o, entretanto, a voos ainda mais ambiciosos. Compôs e gravou uma série de autênticos "lieder" para a soprano Renée Fleming, nascidos de seu engajamento como compositor em residência no Carnegie Hall na temporada de 2008/2009, quando fez a curadoria de uma série de concertos e estreou estas canções para voz e piano.

E em seu mais recente CD, lançado mês passado pelo selo Nonesuch, ele vai ainda mais longe. Para Modern Music (eta título sintomático), convocou dois colegas de adolescência: Patrick Zimmerli e Kevin Hays. O primeiro era saxofonista, o segundo pianista. Ambos, como Brad, militavam no jazz. Hoje, um quarto de século depois, Patrick transformou-se em arranjador e sobretudo compositor contemporâneo; Kevin Hays mergulhou na carreira de pianista de jazz. Já tocou com músicos do calibre de Sonny Rollins, John Scofield, Jack DeJohnette e Ron Carter.

O trio se reencontrou dois anos atrás, quando Brad montava a série de apresentações no Carnegie Hall. Ali forjou-se este incrível Modern Music, que só agora sai comercialmente em CD. A ideia básica de Brad era pedir a Patrick que escrevesse música para o duo de pianos, e também propor músicas contemporâneas passíveis de serem arranjadas para eles. A primeira ideia foi Metamorfoses, a célebre peça para 23 instrumentos solistas que Richard Strauss compôs em plena Segunda Guerra Mundial, como réquiem e tributo à cidade de Dresden, destruída por bombardeios aliados. Arvo Pärt e Gorecki também foram cogitados.

No final, permanecem arranjos de duas peças emblemáticas da música contemporânea norte-americana: Music for Eighteen Musicians, de Steve Reich, e temas do quarteto de cordas n.º 5 de Philip Glass. Os dois setentões são os líderes da música minimalista nos EUA, hoje uma respeitável "senhora" de 50 anos. Tanto numa como noutra, Brad confessa que teve bastante dificuldade. E explica por que no ótimo bate-papo do encarte do CD: "Grande parte de minhas influências de música clássica está nas tradições alemã e francesa. Considero uma novidade retirá-las de seu contexto e colocá-las na moldura do jazz. Mas Reich e Glass, bem, eles ainda estão muito próximos da gente, são profundos e importantes. Estão de fato 'aqui e agora'; são parte de nosso contexto. Suas sonoridades estão por toda parte ao nosso redor e atingem todo tipo de pessoas. Assim, é estranho, mas esta proximidade torna mais difícil a abordagem deste tipo de música". Experiência muito interessante, que sem dúvida pode ampliar ainda mais o público do minimalismo de Reich e Glass.

Quem sabe o arranjo mais instigante de Zimmerli tenha sido o clássico do free jazz Lonely Woman de Ornette Coleman. Os acordes bastante cheios mas jamais martellato dos dois pianos nos primeiros compassos instauram timbres assemelhados aos de um gamelão javanês, instrumento que Debussy adorava. E o clima debussysta permanece, de modo surpreendente para quem conhece o original de Coleman.

Zimmerli também brilha intensamente em três composições próprias, incluindo a faixa-título do CD. Brad confessa que estas foram as performances que mais exigiram dele e de Hays. "Em Modern Music há um trecho indicando que devemos improvisar na mão direita e ao mesmo tempo tocar o que está escrito na partitura para a mão esquerda. Parece fácil no papel, mas foi um duro desafio para nós. Tudo bem tocar algo completamente improvisado. Tudo bem também tocar algo inteiramente escrito. Mas meio a meio? Superdifícil! Patrick, definitivamente, nos fez sair de nossa zona de conforto."

Modern Music tem um certo ar minimalista, mas ao mesmo tempo está distante de Reich e Glass. Em todo caso, interessante, interessantíssima esta mistura de improviso na mão direita e música escrita na mão esquerda dos pianistas. Kevin Hays assina a lírica Elegia, e Brad Mehldau mostra sua Unrequited, que começa com um belo contraponto bem bachiano. Serena, a música caminha, entrelaça-se e adquire tônus mais encorpado, até ser tomada por improvisos.

Jamais se esqueça, porém, de que aqui estamos muito distantes de shows e gravações convencionais a dois pianos. É outro planeta, a milhões de anos-luz das costumeiras overdoses sonoras que irritam por desaguar em música óbvia, chata, banal. Troque estes adjetivos por outros, como refinamento, delicadeza, sutileza e alta dose de invenção. É isso o que nos proporcionam Brad Mehldau e Kevin Hays nos pianos. Decisivos, claro, também são os arranjos sofisticados de Patrick Zimmerli para elevar ainda mais a qualidade desta música sem rótulos, fronteiros, muros ou cercas.

Crítica: João Marcos Coelho

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