Lições da 'mórbida complexidade' do sentimento humano

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2012 | 03h13

JJJJ ÓTIMO

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A adaptação do romance de Camilo Castelo Branco foi proposta a Raoul Ruiz pelo produtor português Paulo Branco. Ruiz não conhecia o livro. Leu e disse que a versão para a tela daria um filme de 20 horas. Por mais elástica que seja uma produção, esta não poderia chegar a tal dimensão. Ruiz "contentou-se" com uma versão para TV em seis episódios de 52 minutos cada um, e uma para cinema, com pouco mais de quatro horas e meia. Esta é a que veremos.

Camilo publicou a história em livro em 1854, quando tinha 29 anos. É seu segundo romance. Mas o texto havia saído antes, em capítulos, no jornal O Nacional, do Porto. O filme guarda as marcas do folhetim. Por um lado, há o tom emocional e lacrimoso, que tanto atraiu a curiosidade de Ruiz como traço possível da alma portuguesa daquela época. Esse pathos está tanto nos diálogos profusos quanto nos silêncios igualmente intensos. O tom, por vezes solene, aparece nos longos planos contínuos, que predominam como estilo recorrente de Ruiz e aqui encontram terreno particularmente fértil para florescer.

Por outro lado, predomina, clara, a estrutura básica do folhetim, na qual uma trama inicial começa a se bifurcar em histórias variadas, como numa narração em abismo, para que as pontas por vezes se liguem da maneira a mais improvável, em especial no desfecho. O que passa ao espectador não a sensação do inverossímil, mas, pelo contrário, a experiência do prazer da narrativa, dos entrechos complicados e cheios de reviravoltas que fizeram e ainda fazem o encanto da arte folhetinesca.

Nesses desvãos do exasperado romantismo de Camilo se desenvolve a trajetória do órfão João, depois Pedro da Silva, às voltas com um padre sensual e maquiavélico, Dinis, uma condessa vingativa, atos de pirataria e outras circunstâncias e peripécias. As histórias se passam em Lisboa, claro, mas também em Paris e até mesmo no Brasil. São tramas como amplificadas pelo sentimento de prazer e pasmo diante da "mórbida complexidade sentimental da humanidade", como definiu o crítico português Alexandre Cabral.

Mistérios de Lisboa é um longo flash-back, construído a partir do manuscrito deixado por um moribundo. O brilho e o rigor com que um Raoul Ruiz bastante doente (morreria em 2011) lê e traduz em linguagem cinematográfica esse velho romance, faz pensar em uma curiosa identidade entre autores. Tanto o diretor como o escritor eram sensíveis a essa construção labiríntica da alma humana. Lendo Camilo, Ruiz sentia-se em casa.

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