Lições a partir da prática do olhar

Em novo livro, Jorge Coli relê o legado de vários pintores do século 19 e leva a pensar sobre a produção atual

Teixeira Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2010 | 00h00

É difícil fazer justiça, num texto curto, a um livro denso, atravessado por uma erudição pertinente, sugestiva e no entanto leve. E é ainda mais difícil quando é uma coleção de estudos sobre temas diversos. O autor avisa que não se trata de um "feixe heteróclito": os textos estão "unidos por focos que se completam" na busca de chaves para entender a pintura do século 19. Mesmo assim, são muitos - sobre Delacroix, Manet, Proust e Benjamin, sobre o erotismo, a luz e a sombra, o classicismo e o naturalismo - e cada um deles pediria conversa no patamar (alto) que o autor fixa.

O caminho, então, é deixar em parte de lado o "o quê" do livro e falar do seu "como" e de sua voz de fundo. Esse "como" é de início explicitado pelo autor nas suas reservas diante da validade de adotar-se, para a reflexão, um método de análise ou uma teoria explicativa. Jorge Coli desconfia da "ingenuidade" que é aplicar um método e a ele prefere a prática e a intuição, a sensibilidade. Prefere praticar o olhar. Ver as obras, ele diz, antes de ler sobre elas. E essa é sua primeira lição de liberdade, voz de fundo desse livro. Lição que não se aplica somente ao exame dos temas do século 19 e que permite ver a coisa em si em vez de enxergar apenas, de novo, o próprio método. Coli olha as obras a seu modo, como fica claro no ensaio que dá título ao livro e que trata da tela memorável de Delacroix, A Liberdade Guiando o Povo. Buscando recursos ali onde possam estar, venham de onde vierem, Coli lança mão tanto da história política como da arte e fala dos códigos tanto quanto dos corpos - e dos sexos.

Um segundo traço forte de seu "como" é pensar fora das trilhas batidas. "Think outside the box", diz ele ali onde eu diria "pensar sempre desde outro ponto de vista", a maior lição que tirei de Wittgenstein. Pensar fora do bando, como faz Coli no seu "manifesto" no fim do seu livro. E o terceiro traço, procurar as correspondências - não só entre uma obra e outra como entre uma linguagem e outra (entre a arte e a literatura ou o cinema).

Esses traços permitem que o livro extravase o tema e o tempo indicados em seu subtítulo: a pintura do século 19. Coli fala dessa pintura, mas o modo como o faz permite que se pense em outra pintura de outros tempos e em outras relações, como aquelas entre arte e política, tema da Bienal de São Paulo deste ano. Ver como o autor manipula esses princípios, numa rede pouco abaixo da superfície do texto, é o um dos prazeres dessa leitura.

Há também, sem dúvida, prazeres mais "conteudísticos", como aquele extraído da decodificação que o autor faz da histórica (em mais de um sentido) tela de Delacroix. O prazer, aqui, deriva do desvelamento dos sentidos dessa pintura, em mais um exemplo de como é difícil "ler" corretamente uma obra do passado. Muitos dos que ainda veem arte se declaram mais confortáveis diante de uma obra supostamente "explícita" do passado (alguma pintura plenamente figurativa) porque a veem como mais "natural" e pensam entendê-la mais e melhor do que a arte "difícil" dos modernos e contemporâneos, cujo significado lhes escapa. Mas nada é natural na arte. O que entendem de fato ao olhar para uma tela de Da Vinci, Delacroix ou Goya? Ainda mais quando estamos hoje todos atacados por aquilo que Harold Bloom chama da "preguiça visual" que, movida pelo cinema e pela TV, nos leva a querer ver sempre mais e sempre mais rapidamente para podermos esquecer ainda mais depressa o que acabamos de ver? A desmontagem que Coli faz de A Liberdade Guiando o Povo é como uma pequena novela, um instigante conto intelectual (como algum de Balzac, talvez - mas com a forma, o espírito e a intenção contemporâneos). Toda a liberdade do autor está visível em sua leitura da Liberdade de Delacroix - e quanto maior é sua liberdade, maior a do leitor.

Mais liberdade, ainda, e liberdade fundamental, vem no último capítulo, dedicado à cultura e como entendê-la. Defendendo sua complexidade e rejeitando implicitamente os simplismos dominantes na constante instrumentalização que dela se fez neste país no século 20, à esquerda e à direita, e que continua a se fazer, Coli destaca como a noção de verdade é a grande inimiga da cultura, que não é sempre tão "boa coisa" como se pensa. Sou suspeito para concordar com isso porque esse é meu ponto de vista reiterado. Mesmo assim, nunca será demais destacá-lo.

Minha leitura de O Corpo da Liberdade, puxando-o para o aqui-e-agora, parecerá afastada do livro, que diz dedicar-se à pintura do século 19. Mas me justifico com uma distinção entre o artista ("aquele que está na gênese da obra") e o autor ("a unidade que reúne as constantes do pensamento artístico embutido nas obras"). Digamos que o autor da obra seja seu interpretante, não seu intérprete físico, mas a soma de significados suscitados pela obra e a ela agregados. Algo que só os melhores livros podem ter. Ou ser. Lendo sobre Delacroix ou sobre a liberdade na arte, entendo melhor a arte e a cultura de hoje e o que esperar de uma e outra. Com isso, sou mais livre. E todo momento será sempre o de receber bem um livro que fale da liberdade, na arte ou fora dela: é essa a questão central, sempre, ela que anda um pouco esquecida. É sempre bom falar dela antes que seja tarde.

TEIXEIRA COELHO É AUTOR DE O HOMEM QUE VIVE (UMA JORNADA SENTIMENTAL) (ILUMINURAS)

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