Liberdade musical

Pela primeira vez, Beck apresenta músicas de seu livro de partituras Song Reader; projeto instigou uma série de gravações pelo mundo; californiano vem ao Brasil em novembro

PEDRO CAIADO, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h11

Depois de se entreter por trás de projetos tão diferentes como a trilha sonora dos filmes Jeff e as Armações do Destino, Crepúsculo e Scott Pilgrim Contra o Mundo, além de colaborações únicas com Jack White e Dwight Yoakam, o pioneiro da música pop, Beck Hansen, retornou mais uma vez com algo diferente: Song Reader.

O esquisito álbum, que nunca foi gravado nem lançado, veio, em vez disso, na forma de um livro de partituras - uma homenagem à música do século 19, em que a indústria era dominada por livros assim. Pela primeira vez, o "álbum" ganhou uma apresentação na voz do próprio cantor, meses depois de seu lançamento no fim do ano passado.

Beck apresentou suas versões no palco do centro cultural Barbican, na última semana, reunindo uma constelação de artistas - entre eles, nomes como Franz Ferdinand, Jarvis Cocker, Guillemots e Charlotte Gainsbourg - que interpretaram a seu modo as canções do livro de partituras.

O livro de capa dura é o resultado de um projeto que levou 14 anos para ser desenvolvido. São 20 músicas entre páginas repletas de notas musicais e artes criativas. "Foi uma dificuldade escrevê-las. Às vezes, as letras pareciam ser clichê, mas, se fossem muito inteligentes, não teriam apelo universal", comentou em entrevista ao jornal britânico Guardian.

Song Reader é um projeto ambicioso que o californiano começou a pensar na década de 1990. "Era somente a ideia de escrever canções e colocá-las em um livro. Na época em que pensei pela primeira vez nesse projeto, não existia MP3 e internet", disse. "Quando pede para as pessoas aprenderem canções que nunca ouviram, você coloca uma pressão diferente em como as músicas deveriam ser", explicou.

O Estado conferiu a mega-apresentação de conceito intrigante. No palco, ele brincou: "Eu não tenho certeza de como essa música termina. Talvez ela nunca termine", durante performance de Do We? We Do. Na realidade, ninguém sabe, já que a canção nunca foi gravada. "Eu estou feliz por fazer parte desse projeto, mas é louco criar músicas de um álbum que não existe", disse Alex Kapranos, do Franz Ferdinand, após uma versão psicodélica de Saint Dude.

O engraçado Jarvis Cocker, do Pulp, interpretou Why Did You Make Me Care dançando flamenco, enquanto Charlotte Gainsbourg apresentou Just Noise no estilo pop anos 1960. Projeções mostravam a arte de cada canção em telões e, entre uma performance e outra, poetas declamaram textos que criticavam a liberdade e o individualismo trazido pela internet.

Em um ensaio publicado pela revista americana The New Yorker, o músico afirmou que Song Reader é uma tentativa de fazer a música mais interativa, em vez de uma experiência passiva. "É algo que foi perdido em nossas vidas. Há o aspecto humano de tocar músicas por si próprio, seja você amador ou músico aspirante", afirmou. "Como na tradição folk, em que se sentia que a música poderia pertencer a qualquer um", prosseguiu. "Essas músicas estão aqui para serem criadas, ou, pelo menos, para nos lembrar de que são apenas um pedaço de papel até serem tocadas por alguém", escreveu no prefácio do livro.

Experimental. Beck sempre foi um pioneiro na indústria musical, experimentando desde o início de carreira. Desde o hino dos preguiçosos, Loser, passando pela influência brasileira de Tropicalia em Mutations até a paralisia musical do álbum Sea Change. Suas letras variam do profundo significado à loucura e trivialidade. Da mesma forma os ritmos, uma ousada mistura.

Desde o lançamento, as melodias impressas nas páginas do livro criaram vida graças a músicos ao redor do mundo que toparam o desafio e postaram o resultado na internet. Em sites como YouTube, Soundcloud e Songreader.net (site oficial do projeto), pode-se encontrar uma variedade de versões das canções Saint Dude, Rough on Rats, Now That Your Dollar Bills Have Sprouted Wings e Mutilation Rag. Uma simples busca no Soundcloud mostra o sucesso do projeto: centenas de versões aparecem nos resultados, tornando evidente as diferenças musicais entre cada uma.

Um artista chamado Double B criou uma versão de Now That Your Dollar Bills Have Sprouted Wings inspirado pelo álbum mais experimental de Beck, Midnight Vultures. Já a banda The Portland Cello Project toca a mesma música com um passo parecido com o country lento do álbum Mutations.

Cada versão adiciona novos talentos, arranjos e ideais, sem ter como base uma gravação oficial em um mundo que não oferece o certo ou o errado. Apesar de o disco ter sido criticado por alguns, que o acusaram de ser estratégia de marketing ou indulgência estilística, sem dúvida Song Reader é a resposta criativa (e bem-sucedida) de Beck à geração YouTube e internet, ao mesmo tempo em que é saudosista, já que o livro é uma contradição na época dos tablets e smartphones.

Novos projetos. Outros esforços de instigar o público a criar versões foi a colaboração com a marca Sonos, que montou um estúdio em Los Angeles para encorajar novos artistas a fazer canções do livro, além do evento na loja de discos Rough Trade, em Londres, que reuniu amadores e profissionais depois do lançamento.

Após tanto escrever canções para vários artistas e tocar músicas escritas por outros, ele anunciou que prepara dois álbuns em formato "tradicional". Um será acústico e, o outro, uma continuação de Modern Guilt, de 2008. "Eu comecei a gravar um novo álbum em 2008 e nunca terminei. Agora estou tentando concluí-lo antes que vire relíquia de uma era perdida", afirmou em entrevista à rádio australiana Triple J.

A nova canção lançada no iTunes, I Won't Be Long e o single Defriended, lançado em junho, dão uma ideia do que vem por aí. No dia 9 de novembro, Beck se apresentará no Brasil durante a sétima edição do Festival Planeta Terra.

O show de Beck Hansen, em novembro, é uma das apostas do revigorado festival Planeta Terra, que viu a sua fama de evento incontestável perder o lugar para o Lollapalooza em 2012.

Após um line-up pouco expressivo no ano passado, correram boatos de que o Terra, o festival mais importante do País nos anos que antecederam o boom de shows internacionais por aqui, seria cancelado pois perdera opções com a chegada do Lolla. Não foi, e o anúncio de parceria com a T4F, braço nacional da megaprodutora Live Nation, garantiu um line-up sólido para 2013 (mais nomes serão anunciados). Os chamarizes são veteranos do rock moderno, um filão que um dia será esgotado, mas, por enquanto, ainda tem representantes ativos como Beck e Blur, os principais nomes escalados até agora.

Além de lançar o conceitual Songreader, Beck prometeu dois álbuns para este ano, um acústico e outro que será a sequência de Modern Guilt, seu último disco convencional (2009).

O Blur chega ao Campo de Marte (local do Terra) com turnê de reunião que teve início na Olimpíada de 2012. Damon Albarn (foto) já tem 44 anos, mais de 20 depois de lançar o primeiro disco, mas seu currículo não deixa de ser invejável, tanto à frente da reformulação sonora do Blur no fim dos anos 90, quanto chefiando o projeto Gorillaz na década passada. Assim como Beck, recusou render-se à sonolência criativa. / ROBERTO NASCIMENTO

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