Liberdade Interior

Em 1943, quando bombas e palavras de ordem explodiam por toda a Europa, o romancista francês Georges Bernanos ponderava: a França é capaz de se adaptar a todas as formas da guerra moderna, exceto a uma, à dos alto-falantes. Nesta guerra, justificava em seguida, "a França será sempre derrotada, exatamente porque o país existe para que não seja sufocada certa liberdade interior, que é como a parte de silêncio indispensável para se ouvir a voz simples e sincera de cada homem de boa vontade".

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2011 | 00h00

No dia 25 de outubro de 1977, o teórico e ensaísta Roland Barthes perde a mãe querida. No apartamento de Saint-Sulpice, em Paris, não se ouve o choro das carpideiras nem espoca o flash dos paparazzi. Alteia-se certa liberdade interior. Ela se confunde com a parte de silêncio indispensável para que o filho medite de modo simples e sincero. As palavras tomarão corpo em 330 fichas que, transcritas e reunidas, comporão o livro Diário de Luto (Almedina, 2010). Qual delicado poeta lírico, Barthes ausculta, descobre e examina sentimentos e emoções que atravessam sua existência diária até a tarde em que ele próprio vai minguar em leito hospitalar, atropelado por furgão.

Na primeira ficha, datada do dia seguinte ao da morte, o órfão já ousa. Constata: "Existe a primeira noite de núpcias", e engatilha: "Haverá primeira noite de luto?" A comparação abre o território dos afetos e da escrita, não para a posse exclusiva do cadáver (palavra, aliás, inexistente nas fichas), mas para o prazer na mortificação por que passa o sobrevivente diante da súbita "presença da ausência". O silêncio da suave voz materna, anota, é causa duma "surdez localizada". A morte celebra - não é para isso que existem as palavras? - a cerimônia de adeus ao corpo vivo e à fala da mãe, assim como o prazer sexual abre corpos apaixonados para selá-los no abraço definitivo. Na noite em que morre a mãe, o pesar pelo seu desaparecimento não é menos intenso nem menos egoísta que o proporcionado pela descoberta do amor carnal na madureza.

A segunda ficha elucida o subterrâneo da primeira noite de luto. Afirma-se enfaticamente: "Você não conheceu o corpo da Mulher!" Contesta-se: "Conheci o corpo doente e depois moribundo da minha mãe." Em novembro, o órfão sonha pela primeira vez. "Mamãe estava deitada, mas de modo algum doente. Vestia a camisola cor-de-rosa comprada na loja Uniprix."

Em seguida, Barthes se dedica a desbastar a linguagem de seus lugares-comuns. Severo Sarduy propõe ao amigo a "cura pela tranquilidade". Irritado, Barthes anota: "O luto (a depressão) é bem diferente duma doença. Do que querem que eu me cure?" A Enciclopédia Larousse propõe a duração de 18 meses para a perda de pai ou de mãe. Como é tolo medir a intensidade do luto! Assevera o órfão: só a "emotividade" do luto é que passa. Ao ouvir a frase "Ela não sofre mais", quer saber a quem o pronome ela reenvia e o motivo para o presente do indicativo. Desespero, anota, é palavra por demais teatral. Já a palavra luto é psicanalítica. Como Marcel Proust, prefere o termo pesar (chagrin). "O pesar é egoísta", anota. E esclarece: "Moro no meu pesar e é isso que me faz feliz." Nele submerso, entrega-se à "disponibilidade dolorosa". Os desejos particulares seriam franqueados com a morte da mãe? Em viagem pela Tunísia e, mais tarde, pelo Marrocos, descobre que o luto enterra também a "impressão de liberdade", em que se debatia quando se distanciava dela em vida. "Ali onde o mundo me diz "Aqui você tem tudo para esquecer", menos atino com o que me levaria a esquecer."

Ao contrário dos moralistas do século 18, Barthes não se vale de abstrações para descrever os sentimentos íntimos. A sensação de abandono se autonomeia pela experiência concreta. Enterrada a mãe na cidade natal, ele volta ao apartamento. Anota: "Como é que vou poder viver ali sozinho?" Dias depois observa que solidão é monodrama. É não poder dizer a alguém, ao sair, a que horas estará de volta. O órfão convive com a ausente no reino do banal (sic). Ao dar conta da casa, da cozinha e da roupa suja, compartilha "os valores do seu cotidiano silencioso". A presença dela se torna então palpável. Durante a longa doença, o filho agiu como "mãe da mãe". Teria perdido a filha? Ao rever o filme Pérfida, de William Wyler, a infância revive na imagem da latinha de pó de arroz aberta por Bette Davis. Noutro filme, o foco no cordão trançado que acende o abajur entrega ao espectador a imagem da mãe às voltas com as prendas domésticas. Anota: "Inteirinha, ela saltou para o meu rosto." Na leitura da biografia de Marcel Proust, ecoa o desejo de morte. Quando Céleste lembra ao patrão a cena da ressurreição no vale de Josafá, Proust lhe diz: "Se tivesse certeza de que reencontraria Mamãe, morreria agorinha mesmo." Coragem significa querer-viver.

A dedicação à mãe doente fora total. Anulara qualquer desejo de escrita. "Ela era "tudo" para mim." Morta, a mãe se torna opaca e aflitiva: "Sempre a sensação dolorosa de que as tarefas, as pessoas, as solicitações, etc., me separam de mamãe." No entanto, o luto rememora e torna o órfão atento à antiga e silenciosa lição materna. Irrompe uma ideia que o assombra. "Nem sempre a mãe fora tudo para ele." Ela "se fazia transparente para que eu pudesse escrever". A eficácia no trabalho intelectual tinha sido atingida na disponibilidade mínima. Manifestação do Bem Soberano, a transparência passageira torna a Mãe presente em todos os seus escritos. Busca reproduzir a bondade materna na própria vida. Só consegue imitar traços menores da sua personalidade. Por exemplo, as falhas de memória. Esquece as chaves, as frutas compradas no mercado.

Ao reinício do ano letivo, Barthes fica à espreita do dia 10 de março (domingo da Páscoa), "não para entrar em férias, mas para reencontrar a disponibilidade onde mora a mãe". Na noite fria de inverno, permanece só na casa aquecida. Há que transformar o "trabalho no sentido analítico - do luto e do sonho, em trabalho real - o da escrita". Anota em seguida: "Perder o medo agora que a perdi."

Não há por que temer a catástrofe que já aconteceu (apud Donald Winnicott).

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