Liberdade e amizade na fábula de 'Zarafa'

O francês Rémi Bezançon fala da bela animação baseada numa história real

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2013 | 02h20

Rémi Bezançon nasceu em Paris, em 1971. Aos 30 anos, e convencido de que queria ser roteirista, ele escreveu com um amigo - Alexander Abela - o roteiro baseado na história que este último lhe contara, sobre a primeira girafa a aportar em terras francesas. Bezançon e Abela ofereceram o roteiro a várias empresas produtoras. O único a se interessar pelo assunto foi o produtor Didier Brunner, mas ele já estava comprometido com As Bicicletas de Bellevue e lhes pediu que voltassem mais tarde.

Anos depois, Bezançon já era um diretor de filmes live action - Ma Vie en l'Air, O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas, Un Heureux Événement - quando surgiu uma produtora empenhada em realizar Zarafa. Mas havia uma exigência - ele teria, por uma questão de credibilidade aos olhos do 'mercado', de ser codiretor. E surgiu a parceria com um desenhista, Jean-Christophe Lie. O que resulta disso não é só uma bela animação. É um grande filme, independentemente de formato ou gênero. Tem potencial para agradar às crianças, que já estão se divertindo com outras animações em cartaz. Tem substrato intelectual para satisfazer aos adultos mais exigentes. Afinal, parafraseando o crítico Dib Carneiro Neto - autor do livro Pecinha É a Vovozinha, sobre teatro infantil -, girafinha é a vovozinha. Zarafa é para gente grande (também).

A entrevista com o diretor foi realizada em Paris, após o Festival de Cannes. A primeira pergunta foi, claro, sobre como e por que um diretor de live action virou diretor de animação? "Nunca foi uma intenção, mas se você prestar atenção na história dos grandes estúdios que fundaram a animação, e estou falando da Disney, o diretor era anônimo. Você sabe quem dirigiu Peter Pan, de 1953? Digo porque foi o primeiro filme que vi, e fiquei siderado. Na época nem conseguia avaliar, mas estava tudo lá. O paraíso perdido da infância, o difícil aprendizado da vida adulta etc. Peter Pan formatou meu imaginário e os temas que hoje identifico no filme estão em Zarafa e nos filmes que fiz com atores."

E Bezançon prossegue: "A figura do grande animador, com exceção de Disney, é recente. John Lasseter, da Pixar, Miyazaki. Pegue um diretor como Wes Anderson, quando faz uma animação, O Fantástico Sr. Fox. Não é uma animação, é um filme de Wes Anderson. Por mais que o admire, queria evitar que isso ocorresse conosco. A história de Zarafa foi pensada desde o início para ser uma animação e o importante não éramos nós, Jean-Christophe e eu, mas os personagens. Inocência, amizade, o tempo. Alexander (Abela) e eu percebemos desde logo a riqueza da história que ele me havia contado. E foi isso que me impulsionou, durante mais de dez anos, a querer contar essa história".

Num certo sentido, Zarafa é uma animação na contracorrente. Até outro francês, Michel Ocelot, aderiu à ferramenta do 3D para seus Contos da Noite, que vão permanecer em cartaz no CineSesc. Quando os produtores lhe propuseram que fizesse Zarafa em 3D, Bezançon de cara disse não. "Era uma questão de honra que o filme fosse feito em 2D. Até nos EUA já existe uma tendência a negar a ferramenta. O futuro da animação não é 3D. É muito fácil. O tipo de realismo que o 3D proporciona não era o que os nos interessava, a Jean-Christophe e eu. É muito mais difícil criar a perspectiva em 2D, sem os recursos computadorizados. Queríamos uma animação plana, artesanal, tão primitiva, num certo sentido, como a narrativa oral de nosso narrador."

A pergunta que não quer calar - estilizada como é a animação de Zarafa, ela capta o esplendor do deserto. Lawrence da Arábia, de David Lean, foi uma referência? "É impossível filmar o deserto sem a referência de David Lean. A entrada em cena de Ali (Omar Sharif) é uma das grandes cenas do cinema. Estava no nosso imaginário quando criamos o oásis."

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