Libera tudo

Sugestões de piadas para ‘A Praça É Nossa’ serão tema de redações de Escolas Técnicas Federais

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

15 de junho de 2019 | 02h00

O novo projeto de Nação é liberar algumas amarras sociais, libertar o povo da presunção da velha política, construir um novo Brasil sem corrupção, com Deus acima de tudo.

Radares? Ora, todo motorista sabe o momento prudente de ultrapassar uma fila de caminhões, quais conversões são permitidas, como entrar numa via preferencial, dar a seta, a passagem, ultrapassar pela esquerda, não ultrapassar jamais pelo acostamento, dirigir com uma distância razoável do carro à frente, e, sobretudo, a velocidade exata para entrar numa curva. Só os otários se acidentam.

O Ministério do Meio Ambiente deve parar de defender o meio ambiente caso atrapalhe as divisas da potência agrícola brasileira. A Funai deve planejar a viabilização econômica de reservas indígenas, cuja riqueza pode ir para a segurança inclusive dos próprios índios. 

Peixes estão no mar para serem pescados. O que fazer se reservas marinhas estão cheias deles? A abundância pode até trazer um desequilíbrio ecológico. E que papo pessimista é esse de aquecimento global? A ciência prova: são os termômetros que foram alterados por conta da urbanização das estações meteorológicas. Você não sente o frio que tem feito? E nem entramos no inverno...

Cadeirinhas para criança? Um entrave para o progresso. Olhe bem, desde cedo, a velhacaria manobra para que o brasileiro se acostume a estar preso, confinado num espaço que prejudica sua movimentação. No mais, a criança que não sabe se segurar numa manobra é otária.

Diante de tudo isso, alguns acreditam que o Brasil só dará um passo adiante se retirar mordaças e amarras que sufocam o eleitor que protestou e exigiu mudanças. 

E vai ter entusiasta que vai defender, pode apostar: 

A indústria da multa existe para castigar o cidadão. É herança daquele que quer disciplinar de forma autoritária, stalinista, a conduta do bom cristão. Repressão é coisa de comunista. Comunista é petista. Já foi nazista. As urnas pedem mudança: nada de multas! E...

1. Que volte o molho vinagrete nas barracas de pastel. Quem foi o cretino que o proibiu? É uma tradição da culinária brasileira, que gera emprego e sabor aos que eventualmente vêm com mais vento do que recheio.

2. Volta da briga de galo. Proibir por quê? Deixem os galos se desentenderem sem a interferência do dono. Se um galo está irritado e quer dar porrada em outro, ele tem o direito galiforme de mostrar sua indignação, e o outro de se defender com a arma que possui. Apesar de desconfiarmos de que é um passatempo petista. Não foi aquele marqueteiro, Duda Mendonça, que foi flagrado numa rinha?

3. Por que cigarro está tão caro? O preço abusivo só alimenta a indústria do contrabando. A taxação do produto chega a 80% no Brasil. E aumenta todo ano. É mais alta que a dos Estados Unidos, 43%, Japão, Alemanha, 70%, Itália, 76%. Estamos mentindo? São dados da OMS (Organização Mundial de Saúde). Nela, vocês confiam, não é?

4. Por que não voltam a permitir cigarros em aviões, para aumentar o consumo? Quem quer fumar, fuma. E os incomodados que se retirem. Podemos retomar o que paramos nos anos 1990: a fileira da esquerda de fumantes, a da direita de não fumantes. Não, esquerda, direita... Melhor fileiras sem partido. Fuma-se na parte de trás da aeronave. Pronto. 

5. Aliás, podiam permitir o uso de tablets e celulares nos cinemas e teatros. Não se pode privar o cidadão de permanecer duas horas longe das redes sociais. Também deve ser permitido filmar, para denunciar o viés ideológico deturpado e gay de histórias infantis.

6. Depois de liberarmos o rifle, chegou a hora de liberarmos também a granada de mão e a bazuca. Para o caso de emboscada praticada por assaltantes e arrastões. As escolas podem se armar com obuses, canhões e metralhadoras .50, que podem ficar no telhado. Basta treinarmos o professor de Moral e Cívica. Aliás, eles podem ser militares da reserva, viveram o período do regime militar e podem esclarecer dúvidas sobre a bonança e segurança de época tão sublime.

7. Não vão mais cantar hinos nas escolas? Nem rezar o Pai Nosso? Pois toda manhã, além do tuíte presidencial ser lido antes das aulas, os estudantes cantarão o hino e Singing in The Rain. Ao final, darão o grito de guerra: “Mito, mito!”.

8. Depois de fechado o STF, graças à missão dada a um soldado e um cabo, está na hora da implantação de um Congresso sem partido. Nada de conchavos, bancadas, líderes, debates ideológicos, divisões. Todos unidos. O único partido será o do Brasil. Com Deus acima de tudo.

9. Será decretado o dia da consciência hétero branca. 

10. Pensamentos de Olavo de Carvalho serão difundidos em campanhas do Banco do Brasil. 

11. Aliás, a obra de Olavo, mais as biografias de Brilhante Ustra e Edir Macedo passam a ser leitura obrigatória em vestibulares de Universidades Federais. Sugestões de piadas para A Praça É Nossa serão o tema de redações da Escolas Técnicas Federais.

Uma lista imensa de projetos de lei poderia ser apresentada: aumentar a cola do post-it, facilitar a abertura de potes de palmito e geleia, obrigar toda quadra a ter um cara responsável pelo sinal da internet e TV paga, liberar jet skis em piscinas de clubes, permitir a operação 24 horas em aeroportos de área urbana, rachas em ruas determinadas, estacionar em ciclovias e sobre as calçadas, como nos bons tempos, incentivar o uso de cotonete e palito de dentes entre crianças.

Será que não existem bombas de agrotóxicos que possam ser jogadas de helicópteros em bocas de fumo para exterminar traficantes de tóxicos? Com um assento especial para governadores aliados. Lembrete: botar a Fiocruz para pesquisar. Ustra ser o novo patrono do Exército com Caxias é pedir muito? E a Via Dutra virar Ustra?

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