Libelo e tratado sobre a república

Facundo, obra fundadora, constroi uma rara interpretação da geografia física e humana da América Latina

Miriam Gárate, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

O escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento (1811- 1888) alega em Recordações da Província (1850), mescla de genealogia familiar, autobiografia, narrativa de formação e desagravo público, ter sido gestado ao mesmo tempo que a nação: "Nasci em 1811, no nono mês depois do 25 de maio, e meu pai havia aderido à revolução, e minha mãe palpitava todos os dias com as notícias sobre os progressos da insurreição americana". Jogos retóricos e narcisismo à margem (Sarmiento seria celebrizado em mais de uma caricatura com o apelido de Don Yo durante o exercício da presidência), há um componente de verdade no enunciado. Inclusive, a ordem dos termos talvez devesse ser alterada: uma parte significativa da tradição literária e do pensamento social argentinos nasceram com Sarmiento, com a matriz interpretativa e o estilo delineados em livros como Facundo (1845), Viajes (1849), Campaña en el Ejército Grande (1852). Principalmente com Facundo, misto de libelo e "tratado" sobre o passado, presente e futuro da república, escrito durante o exílio chileno (Sarmiento emigra em 1840 como consequência dos reiterados conflitos com os representantes de Rosas, "tirano" no poder ao qual ele se opõe).

A cuidada edição de Facundo ou Civilização e Barbárie lançada pela Cosac Naify é extremamente oportuna num ano de efemérides em Hispano-América (bicentenário da Emancipação de Argentina, Chile, Venezuela e México, centenário da Revolução mexicana). Evoca, tal como o livro de Sarmiento pretendia fazer com a "sombra" de Facundo, sombras ainda operantes no imaginário argentino, instigando renovadas reflexões sobre esse texto canônico. Os "bárbaros" mudaram de nome ao longo dos séculos 19 e 20: para Sarmiento e a geração romântica foram o indígena e o gaúcho; mais tarde, com o advento do aluvião imigratório foram os italianos, espanhóis, judeus e turcos recém-chegados à Argentina (Lugones e o nacionalismo conservador); em meados do século 20, os "cabecitas negras" vindos do interior do país; hoje, os habitantes de favelas como "Fuerte Apache", os "piqueteros", os "cartoneros", os "bolitas" (bolivianos) e peruanos em busca de subempregos. A sociedade sofreu mudanças; a visão cindida e excludente impressa na superfície visível do texto sarmientino como instrumento de compreensão permanece quase intacta. Daí o interesse das leituras de Facundo que, ao invés de aderir a essa superfície, tornaram produtivas suas contradições e tensões internas, aquelas interpretações que o problematizaram, que o leram a contrapelo restituindo sua dimensão polêmica: Martínez Estrada, Borges, Rivera, Piglia, entre os escritores; Jitrik, Halperín Donghi, González Echevarría, novamente Piglia (responsável por um instigante prólogo nesta nova edição), entre os críticos.

A diversidade de gêneros e propósitos do Facundo foi recorrentemente assinalada: texto inclassificável, híbrido, inicialmente publicado como folhetim, concebido como panfleto na luta contra Rosas. Mas simultaneamente história política e social dos albores da república, exame das origens e desdobramentos do caudilhismo, biografia de um deles (o riojano Facundo Quiroga, assassinado em 1837), ensaio de geografia física e humana, catálogo de tipos nacionais, formulação de uma proposta estética para as letras argentinas, projeto de governo para o futuro da nação.

Ordenando esse emaranhado discursivo no qual desponta com frequência o fictício, uma dicotomia cara ao paradigma ilustrado-evolucionista vigente ao longo do século 19: civilização e barbárie. Trata-se de um antagonismo vinculado a vários outros: cidade/campo, letrado/gaúcho-indígena, norma escrita/direito consuetudinário, república/tirania, exército/montoneras. Todavia, a cada passo a ordem pretensamente instaurada pelo texto é transtornada, se desdiz, revela no âmago do termo legitimado seu avesso (afirma Piglia: o livro não obedece às normas de verdade que postula).

Certamente algumas das características apontadas, somadas à disposição dos três grandes núcleos de Facundo (geografia, população e costumes do pampa; biografia de Quiroga enquanto instância representativa de forças transindividuais; guerra social e tirania de Rosas) evocarão para mais de um leitor brasileiro a arquitetura de Os Sertões. Essa relação não passou inadvertida desde a primeira edição em português de Facundo, empreendida por Monteiro Lobato em 1923.

O leitor brasileiro tem a chance, graças a esta nova edição, de tirar da sombra esse texto ainda vivo no que ele tem de mais fecundo - suas contradições - e de estabelecer nexos com outras obras congêneres. A cuidada tradução de Sérgio Alcides, o posfácio de Foot Hardman e as notas biográficas que acompanham o livro, o auxiliarão na tarefa.

MIRIAM GÁRATE É PROFESSORA DA UNICAMP, AUTORA DE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE NOS

SERTÕES (MERCADO DE LETRAS)

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