Leviatã em Paris

Leviatã em Paris

Anish Kapoor cria um incrível ser no vão do Grand Palais, em Paris, para refletir a política

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2011 | 00h00

Do hebreu, "leviatã" é a designação bíblica empregada nos salmos por Isaías e no Livro de Jó para descrever um monstro de formas imprecisas, misto de serpente e dragão. Nesses textos, ele é a evocação de um cataclismo que modifica a Terra, que transforma sua ordem e pode até destruir o Planeta. Para alguns, pode ser visto como a encarnação de um demônio.

Em um outro sentido, o cientista político inglês Thomas Hobbes valeu-se da mesma figura mítica para descrever o Estado, representação do contrato social e de um corpo coletivo composto por todos nós cidadãos.

Anish Kapoor, artista plástico indiano britânico de 57 anos, releu o mito em uma obra espetacular, apresentada em Paris. Em um trabalho de caráter visceralmente político, Kapoor, um dos mais brilhantes escultores da atualidade, introduziu no vão do Grand Palais uma matriz de PVC que, inflada por 72 mil metros cúbicos de ar, dá origem a um conjunto de três imensos balões com 12 toneladas de peso e 35 metros de altura, o qual denominou Leviathan.

Na principal das três esferas, era possível ingressar. Muitos dos que o fizeram tiveram a sensação de estar nas entranhas de um ser vivo, em uma espécie de placenta impressionante.

  No interior, os 271 expectadores que entraram a cada vez descobriam um ambiente quente - ou muito quente, de acordo com a meteorologia do dia - e nem sempre confortável, banhado por uma luz vermelha que mudava de acordo com a iluminação natural. Na membrana se projetavam as estruturas de metal do telhado do Grand Palais, criando formas e cores dinâmicas na membrana sintética. Os visitantes menos tímidos também tiveram a oportunidade de dialogar com a obra, por meio de frases, gritos e aplausos.

Leviathan, entretanto, era bem mais do que sua beleza plástica; era uma espécie de denúncia. Dedicada a Ai Weiwei, talvez o mais importante artista da cena independente chinesa, preso pelo regime até a última quarta-feira, a obra é também uma reflexão filosófica. Além do "choque visual, sensual e psicológico" que busca, Kapoor também propõe que o espectador ingresse em uma forma opressiva, cuja integridade é impossível compreender ou desbaratar, a menos que se veja de fora. Para muitos, Kapoor criou uma metáfora do autoritarismo. "Minha ideia era mostrar o interior e depois o exterior", explicou. "É a maneira inversa de descobrir o mundo."

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