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Sérgio Augusto
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Levantando de novo

Na última quarta-feira, um sujeito chamado Bill Hillman levou duas chifradas de um touro na coxa direita. Quem mandou facilitar nas ruas de Pamplona nesta época do ano? Desde domingo passado que, como sempre acontece em julho na fiesta de Sanfermin, miúras correm soltos pela cidade basca, chifrando quem encontrar pelo caminho. É a "farra do boi" espanhola, versão light e patusca de outra barbárie consuetudinária, a tourada, a maior atração turística de Pamplona. Como tantos outros americanos (e até brasileiros) antes dele, Hillman foi tentar reviver as farras espanholas de Ernest Hemingway, que foi quem deu fama internacional e lastro literário às correrias de Sanfermin.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2014 | 02h06

Julho é o mês hemingwayniano por excelência. Em julho ele nasceu e morreu. Em julho de 1914 começou a Primeira Guerra Mundial, sua via de acesso a Paris, ao prestígio jornalístico e ao renome literário. Em julho de 1925, ele, a primeira mulher, Hadley, e um grupo de amigos trocaram a festa móvel de Paris pela ensolarada juerga navarra, como fariam os personagens de The Sun Also Rises, publicado no ano seguinte.

Rebatizado de Fiesta na Inglaterra e entre nós traduzido literalmente, O Sol Também se Levanta foi o primeiro romance de Hemingway. Sucesso instantâneo de crítica e vendas, marco da moderna literatura americana, é uma ficção à clef, narrada por um jornalista, Jake Barnes, que tivera uma experiência traumática na guerra e borboleteava pela vie de bohème parisiense, na companhia de outros expatriados anglo-americanos. Jake é Hemingway; Robert Cohn, "o companheiro de tênis" de Jake, é o escritor e editor Harold Loeb; e Bret Ashley, amante de Robert, é Lady Duff Twysden. Jake, noves fora a brochura, é tão indisfarçavelmente Hemingway, que o autor, nos primeiros esboços do romance, só se referia ao personagem como Ernie e Hem.

Mesmo sem ser um admirador incondicional de Hemingway (detestava-lhe a bazófia machista e sobretudo seu sádico gosto pela caça), não me furtei ao prazer de seguir seus passos pela Paris da "geração perdida" - expressão pinçada por Gertrude Stein e popularizada pelo romance, que a cita em epígrafe -, e também por Key West, no extremo sul da Flórida, onde ele viveu antes de se meter na Guerra Civil Espanhola, mas ao pega pra chifrar de Pamplona nunca fui nem pretendo ir. Tenho pelo menos um amigo que lá esteve, o jornalista Roberto Muggiati, por devoção ao escritor, justo no segundo aniversário de sua morte. Hemingway suicidou-se às vésperas da fiesta de Sanfermin de 1961.

Já na décima edição brasileira, agora com o selo da Bertrand Brasil, O Sol Também se Levanta acaba de ter sua edição original "revista" pela editora Scribner's, com a ajuda do neto do escritor Seán Hemingway. Faz tempo que Seán (filho de Gregory, o caçula de Hemingway com Pauline Pfeiffer, curador de arte grega e romana do Museu Metropolitan) restaura e enriquece a obra do avô, juntando o que de cada uma delas encontrou preservado mas disperso na Biblioteca Presidencial John F. Kennedy e no Museu de Boston. Só para concluir a edição definitiva de Paris É Uma Festa, o complemento memorialístico de O Sol Também se Levanta, levou quatro anos.

Hemingway era um escrupuloso artesão de frases, obcecado pela escrita mais simples e direta, sempre indeciso quanto à escolha final de uma palavra ou de um título. Seán exumou mais de 40 desfechos diferentes para Adeus às Armas. A reedição de O Sol Também se Levanta, a sair no fim do mês, traz um capítulo descartado (narrado na terceira pessoa e protagonizado pelo toureiro Pedro Romero), vários trechos cortados e rascunhados, uma relação de títulos alternativos, e um ensaio sobre a primeira visita do escritor a Pamplona, publicado pelo jornal The Toronto Star, em 1923. Mas a cereja do bolo é o "novo" primeiro capítulo.

O original começava assim: "Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton". Na versão alternativa desencavada por Seán, a estrela não é mais do sexo masculino. "This is a novel about a lady" (Este é um romance sobre uma dama) diz a frase de abertura, referindo-se à bela e fascinante Bret Ashley. Os feitos pugilísticos de Cohn nem sequer são mencionados no primeiro capítulo da reedição.

Não faz muito tempo, dois irmãos, Adam e Ben Long, ambos redatores em Nova York, criaram um aplicativo para melhorar a qualidade do texto, qualquer texto, literário ou jornalístico, prometendo torná-lo mais "claro e vigoroso". Deram-lhe o nome de seu inspirador: Hemingwayapp. Você submete um texto ao aplicativo e seu robô editor destaca as construções longas e sem a necessária clareza, assinala erros corriqueiros, sugerindo cortes, alterações e até sinônimos. Frases ressaltadas em amarelo precisam ser cortadas ou fragmentadas. As partes em vermelho, porque densas e complicadas, precisam ser reescritas ou removidas. Os advérbios dispensáveis são destacados em azul, as orações na voz passiva em verde e os vocábulos com sinônimos mais curtos em lilás.

Claro que a primeira providência dos irmãos Long foi testá-lo num texto do próprio Hemingway. Seria a abertura de O Sol Também se Levanta hemingwayniana de verdade? Nela, com 12 frases, 219 palavras e 1.010 caracteres sem espaço, encontraram três frases "de difícil leitura", nove advérbios (a serem reduzidos a um mínimo), três "very" (muito) dispensáveis e uma temerária voz passiva. E fizeram as sugestões cabíveis.

Não se surpreenda por Hemingway não ter sido tão fiel a seus princípios de simplicidade e limpidez. O aplicativo, explicou Ben Long, é uma ferramenta, e como todas as ferramentas, não sabe quando o autor está violando suas regras intencionalmente. O usuário não precisa concordar com todas as suas sugestões, mas que elas são úteis, são.

Ao repetir o teste com a abertura de O Sol Também se Levanta, constatei o quanto Hemingway inspirou-se nas desconcertantes pinceladas de Cézanne. Primeiro, seguem-se as normas, para em seguida subvertê-las. Descobri, ainda, que a tradução brasileira disponível (de Berenice Xavier: 15 frases, 205 palavras, 1.019 caracteres sem espaço), com frases encurtadas por pontuação e advérbios e adjetivos mais compactos ("bastante" no lugar de "painfully and thoroughly", "ótimo" no lugar de "thoroughly nice"), passaria melhor no teste do aplicativo. Pena que não possamos verificar se essa suspeita procede. O hemingwayapp não lê português.

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