"Letti e Lotte" reúne amigas no palco

Juntas, elas somam décadas de experiência e serviços prestados ao teatro brasileiro. Separadamente, são mulheres que conseguiram se manter em evidência ao longo de anos de mudanças radicais nas artes cênicas. Hoje, veteranas que detêm os segredos de sua arte, foram reunidas numa nova produção. Letti e Lotte, de Peter Shaffer, estréia na sexta-feira, no Teatro Renaissance. O trio feminino é composto por Bibi Ferreira, que dirige o espetáculo, e pelas atrizes Rosamaria Murtinho e Nathalia Timberg, que vivem respectivamente Lettice e Charlotte, as heroínas de Letti e Lotte (Lettice and Lovage no original). As três aceitaram convite dos produtores Marcos Montenegro e Nilson Raman. Mas a peça de Peter Shaffer chega aos palcos brasileiros graças ao entusiasmo de Rosamaria Murtinho, que assistiu a uma remontagem recente do texto em Londres, com elenco encabeçado pela oscarizada Maggie Smith. "Assim que vi o espetáculo, comprei o texto", diz Murtinho. "Achei a peça bem interessante. Embora seja tipicamente inglesa, a universalidade dela é imensa." O que mais apaixonou a atriz foram as características de Lettice. A personagem que ela vai viver tem "a capacidade de mudar o cotidiano, de sair da mediocridade". O cenário da peça é um casarão sombrio do século 16, em Londres, onde funciona um museu. Lettice, que trabalha como guia, morre de tédio com a pouca importância do museu e das peças expostas. Para divertir-se e motivar os turistas, inventa fatos, fantasia a realidade. Torna-se um sucesso de público, chama a atenção mais que o devido e acaba demitida pela diretora, a responsável Charlotte. Ocorre que esta fica desolada depois de demitir a funcionária, e resolve arrumar trabalho para ela. Shaffer, autor de Letti e Lotte, tem 74 anos e nasceu na cidade dos Beatles, Liverpool. Hoje mora em Nova York e vive em relativa obscuridade. Mas foi um dramaturgo de grande sucesso a partir da década de 1970, quando escreveu Equus e Amadeus, que fizeram sucesso retumbante em palcos de todo o mundo e chegaram rapidamente ao cinema. Rosamaria Murtinho está encantada por trabalhar com Bibi Ferreira. "É maravilhosa", diz. "Eu me atiro e ela me segura. Dá uma sensação de firmeza que é genial para o ator." Para a atriz, a maior qualidade da diretora é sua perspicácia. "Nada lhe escapa. Tem uma percepção muito jovem do que acontece a sua volta. E transmite tudo para o ator, não escamoteia informações, o que é de uma generosidade enorme." Para Murtinho, a base de composição de Lettice foi uma observação da diretora, segundo a qual a personagem "´tem a pureza da Eva Todor´. Percebi o que ela queria dizer. Eva me serviu de inspiração para compor Letti". E notou a importância da imaginação para a personagem a partir de uma frase do texto: "A fantasia é para ser usada quando os fatos deixam um vácuo". Nathalia Timberg afirma que o espetáculo resulta de um pacto de amizade. "Sou amiga de Rosamaria há anos. Brincando, chamo os filhos dela de meus. E quanto a Bibi, bem, ela me dirigiu em minha estréia profissional, em 1954, quando atuei em Senhora dos Afogados, no Rio de Janeiro. Agora nos reencontramos. Bibi transcende, recria, como fez em Piaf. Senti prazer enorme neste trabalho. Bibi faz o ator viajar com ela". Segundo Timberg, a peça mostra duas mulheres especiais e antagônicas, que descobrem, com o tempo, um denominador comum entre elas. "Esse enfoque hoje é muito abandonado, e eu, como cultuo a amizade, achei bonito isso", conta a atriz. "A peça também é uma crítica aguda do modernoso, reage contra o mau gosto cada vez maior na arquitetura, na arte, na vida. Isso é que torna a peça universal. Peter Shaffer sai em defesa do que é humano", conclui. Letti e Lotte - Teatro Renaissance (Al. Santos, 2.233, tel.: 3069-2233). Ensaio aberto, domingo, 18 h. Preço promocional, R$ 20. Estréia dia 8, 21h. R$ 40 (sexta e domingo) e R$ 50 (sábado). Em cartaz até 17/12. Retorna em 12/01/2001. Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h

Agencia Estado,

03 de dezembro de 2000 | 13h39

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