Letras Imaginárias

Antologia Hede inventa uma civilização bárbara e poética

Wilson Alves-Bezerra, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h11

A invenção de autores, literaturas e até países têm na literatura de língua espanhola uma tradição invejável. Borges a inaugurou com força na década de 1940; mais recentemente, escritores como o catalão Enrique Vila-Matas e o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) se valeram do mesmo expediente. Chega agora ao Brasil uma obra que de algum modo se inscreve nessa tradição: a Antologia Hede (1954), do advogado, poeta e tradutor argentino Manuel Graña Etcheverry. O livro se refere a uma suposta civilização desaparecida, que habitaria a região da Hedália. Um longo e pormenorizado estudo apresenta os hedes, povo capaz de barbárie indiscriminada, mas também de poesia. O detalhismo da introdução só mostra sua pertinência na última parte da obra, quando o autor, que foi genro de Drummond, compara a cultura hede e a ocidental. Nessa hora, ele deixa claro que mais que o moderno Borges, quem tem em seu horizonte são escritores do século 18, como o Voltaire de Cândido e o Swift das Viagens de Gulliver. Seu objetivo é criticar a sociedade contemporânea.

A antologia que segue mostra a poética de Pamódia - poeta incompreendido pelos hedes - baseada na combinatória das palavras "gênio", "sepultura", "haste" e "figura" para compor suas obras completas, apresentadas de forma bilíngue. Trata-se de um sutil exercício de criação e crítica que, ao se postular primordialmente como libelo contra seu tempo, mostra também sua faceta mais perecível.   

WILSON ALVES-BEZERRA É TRADUTOR,PROFESSOR DE LETRAS DA UFSCAR, AUTOR DE REVERBERAÇÕES DA FRONTEIRA EM HORACIO QUIROGA (HUMANITAS/FAPESP)

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