Letra e imagem

Livro e mostra no Instituto Moreira Salles reúnem os melhores ensaios fotográficos produzidos na América Latina desde 1920 até a atualidade

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2013 | 03h06

Mais falados do que vistos, livros de fotografias de grandes profissionais da área, como os de Claudia Andujar, só circularam entre os contemporâneos da fotógrafa brasileira (de origem húngara e nascida na Suíça). Igualmente histórico, Alturas de Machu Picchu (1954), do fotógrafo peruano Martín Chambi (1891-1973), que ilustra poemas de Pablo Neruda (1904 -1973), ficou tão perdido no tempo como a cidade dos incas que o Nobel chileno visitou em 1943. Para corrigir essa distorção, o Instituto Moreira Salles (IMS) abre hoje, em sua sede, a exposição Fotolivros Latino-americanos. A mostra tem curadoria do professor e historiador espanhol Horacio Fernández, também organizador do livro de mesmo nome, publicado pela Cosac Naify.

A exposição reúne mais de uma centena de fotografias e oito vídeos produzidos com imagens dos livros presentes na mostra, 50 publicações históricas realizadas entre 1920 e os dias de hoje. O livro resulta de uma extensa pesquisa realizada em 11 países da América Latina entre 2008 e 2011. O curador Horacio Fernández teve o apoio de um conselho de curadores formado pelo brasileiro Iatã Canabrava, o argentino Marcelo Brodsky, o inglês Martin Parr, a americana Lesley Martin e o espanhol Ramon Reverté, que selecionaram apenas fotolivros com participação ativa dos fotógrafos. E são nomes obrigatórios em qualquer livro histórico. Entre eles estão o pioneiro mexicano Manuel Álvarez Bravo (1902-2002), o argentino Horacio Coppola (1906- 2012), o cubano Alberto Korda (1928-2001) e o brasileiro Miguel Rio Branco (nascido há 67 anos na Espanha).

Horacio Fernández conta que livro e exposição com os melhores livros de fotografia latino-americana nasceram durante a realização do Fórum Latino-americano de Fotografia realizado no Itaú Cultural há seis anos. Um ano antes, em 2006, o fotógrafo Martin Parr e o curador Gerry Badger, ambos ingleses, haviam lançado o segundo volume de História do Fotolivro, o que fez os organizadores da publicação brasileira suspeitarem da existência de muitas outras obras do gênero.

"Os latinos eram poucos na edição inglesa da Phaidon, quase todos mexicanos, e nossa pesquisa revelou a existência de um número de fotolivros superior ao esperado pela equipe de curadores", diz Fernández, que organizou a exposição por seis temas. Há também uma introdução à mostra, feita justamente por meio do livro Amazônia (1978), de Claudia Andujar e George Love, que registram ritos e costumes dos índios da região - Claudia conheceu a tribo dos ianomâmis em 1971. Até por ser o marco zero da ocupação da terra, a introdução chama-se América Antes da América.

Como se trata da América Latina, é compreensível que o primeiro núcleo da exposição seja dedicado a fotolivros de protestos e propaganda política, desde o álbum do mexicano Agustín Victor Casasola (1874- 1928) documentando a Revolução Mexicana de 1910 ao registro da repressão desenfreada das ditaduras latinas pelo italiano Paolo Gasparini, nos anos 1970. "A cidade aparece como um dos principais temas dos fotolivros latino-americanos pesquisados", revela o curador Fernández, destacando as fotos de Buenos Aires por Horacio Coppola, as de Brasília pelo designer Aloísio Magalhães e as imagens do engajado Nacho López, que retratam a Cidade do México nos anos 1950 e 1960, poderoso dossiê dos habitantes do lado pobre da metrópole.

Mais ambiciosos, os fotolivros com ensaios ocupam o núcleo em que se destacam Sistema Nervioso (1975), obra conjunta da fotógrafa suíça Barbara Brändli (que trabalhou na Venezuela por 40 anos) com o designer John Lange e o escritor Roman Chalbaud, além de Retromundo (1986), livro de referência do já citado Gasparini, que confronta dois grupos de imagens, um da América Latina e outro da Europa e Estados Unidos. Brändli mostra a cidade de Caracas "escondida atrás dos signos", como escreve Chalbaud, em 1972. Já Gasparini inverte esses signos e revela, segundo o curador, que a violência na América Latina está menos na periferia e mais no centro da urbe, irradiador do caos.

Um dos núcleos mais interessantes da exposição é o dos livros com ensaios fotográficos feitos com a colaboração de escritores. Fernández menciona o do poeta paulista Roberto Piva (1937-2010), Paranoia, lançado em 1963 com projeto gráfico e fotos do pintor Wesley Duke Lee (1931-2010). "Há um preconceito contra os fotógrafos, comumente vistos como pessoas que só estão no lugar certo na hora certa, mas fotolivros como esse provam que eles são mais que isso." A interdisciplinaridade é destacada tanto no livro como na exposição. No auge da arte conceitual, em 1970, quando os artistas acreditavam mais no processo do trabalho que na obra final, foram produzidos títulos que documentavam performances de nomes como o da brasileira Gretta, representante feminista, e o do chileno Eugenio Dittborn.

O núcleo final é dedicado à produção de fotolivros contemporâneos que transitam entre a documentação fotográfica e o ensaio artístico da última década. Fernández cita como exemplos a série Noturnos São Paulo (2002), do paulistano Cássio Vasconcellos, e O Arquivo Universal (2003), da mineira Rosângela Rennó, ambos multipremiados. "Os museus há muito reconhecem os fotolivros como um meio de expressão importante", observa o curador. E não só eles. O mercado também: há fotolivros que, por sua raridade, hoje alcançam preços estratosféricos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.