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Ler o inimigo

Se você quer pensar, leia. Se você quer combater uma ideia da qual discorda, leia mais ainda. O inimigo é sempre a ignorância

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2019 | 02h00

A Revolução Francesa debateu longamente a liberdade de expressão. A censura do Antigo Regime que levara gente como o Marquês de Sade ou Voltaire para a Bastilha era uma asfixia terrível para os iluminados do fim do século 18. 

Iluministas proclamaram a necessidade da liberdade e Rousseau enfatizou a democracia. Em busca de um avatar para um novo tempo, o bom Beethoven dedicou sua Sinfonia Heroica a Napoleão, o demolidor de tronos. Depois, vendo que o novo continha muito do que combatera, rasgou a dedicatória, desiludido. Vozes céticas já tinham alçado voo antes do músico alemão. No isolamento britânico, Edmund Burke desconfiara dos ventos revolucionários quando eram uma brisa ainda, sem o ciclone do Terror ou o furacão napoleônico. Para o conservador irlandês, uma ruptura do porte da Revolução Francesa era perigosa e irromper o novo sem compromisso com o que nos precedeu causava mais danos do que benefícios. No século 19, outro autor, Tocqueville, escreveria obra com reflexões de suspeitas sobre a democracia, desta feita a do Novo Mundo. 

A liberdade de leituras e de debates seria a autora do um novo amanhã radioso? A mais claudicante democracia seria melhor do que a mais ágil das ditaduras? Difícil responder com clareza fora do estado idealizado das coisas. Amamos a democracia como uma abstração e a liberdade como uma utopia. O Estado Democrático de Direito é defendido por muitos e seguido por alguns. Existe um pessimismo determinista que pode ser baseado no historiador Hyppolyte Taine (1828-1893) que gozou de imenso prestígio no século 19 e quase esquecimento nos cursos de História de hoje. Ele pensava muito no meio geográfico, no problemático conceito de raça e de uma conjuntura específica que levaria homens a agir de forma certa ou errada. Tocqueville achava que a opinião do senso comum expressa em votações maciças e populares levaria o senso comum ao poder, o homem mediano (quase que, de forma anacrônica diríamos, o populista). O povo votaria em quem dissesse o que desejava ouvir, nunca o que precisariam ouvir. O povo não estava errado. Apenas seria, dedução algo aristocrática do juiz Tocqueville... o povo. Taine diria que o povo era condicionado e que suas ações poderiam, inclusive, ser previstas. Em outro par anacrônico, poderíamos dizer que Tocqueville era o pensador sobre o populismo e Taine, o idealizador do algoritmo médio do consumidor-eleitor. 

Citei Burke, Taine e Tocqueville. Eles são (por rumos diferentes) clássicos conservadores fascinantes: beleza do texto, influência sobre o pensamento, ideias fortes e permanente abertura para novas interpretações. Funcionam como Santo Agostinho ou Karl Marx: não dependem da pífia opinião passageira de uma onda política ou de um leitor que seleciona seus textos pelo viés de confirmação do seu mundinho. Ler Pierre-Joseph Proudhon, Rosa Luxemburgo ou Roger Scruton não é decidir entre crisântemos ou margaridas em uma floricultura: são todos obrigatórios para quem pensa Estado, revolução, política ou poder. 

Vamos a outro exemplo. Taine era um positivista? Um conservador burguês da academia francesa? Ao descrever o Antigo Regime, ele fala que “todo fisco tem duas mãos”, uma visível que explora o cofre do contribuinte e outra invisível, que se esconde atrás da mão de um intermediário que disfarça o fato de ser uma “nouvelle extorsion” (uma nova extorsão). (Les Origines de la France Contemporaine – L’Ancien Régime: Le Peuple, cap. 5). Taine faz pensar como tantos do século 19 que trataram do sistema de impostos. Nada mais define a inteligência do que perceber isso: ao descrever a odiosa taxa sobre o sal, a gabela, ele acaba construindo teorias e análises sobre o fisco, o agente local, o agente central e a percepção popular do imposto. Quando alguém iniciante no mundo do conhecimento me diz que não lerá Taine porque ele seria conservador ou positivista, eu penso que essa pessoa nunca sairá do estágio infantil do saber, ou seja, não permitirá que o lido questione e esgarce suas convicções. Em um mundo em que tantos atacam as ideias de Gramsci e tão poucos leram o ativista italiano, é sempre revolucionário recomendar a Bíblia para ateus, Marx para liberais, Burke para revolucionários e Gramsci para pensar educação. O resto é slogan, grito de guerra de tropa, axioma vazio e, como toda bactéria rastaquera, com alto poder de contaminação. 

Faz anos que digo a mesma coisa. Não é possível ler tudo. Não é sequer viável ler a maioria das obras sobre um único tema. O primeiro passo é tratar dos clássicos que formaram o tema e alguns dos seus maiores comentadores. O inimigo nunca é, de fato, o “Marxismo cultural ou “Neoliberalismo”, o inimigo é sempre a ignorância. Se você quer pensar, leia. Não o comentador, não um vídeo de YouTube, não um resumo simplificado. Leia o original. Mas é complexo demais! Paciência. O caminho não tem flores apenas. Se você quer combater uma ideia da qual discorda, leia mais ainda. Leia sobre a ideia em quem a formulou. Depois, leia os comentadores e críticos clássicos. Para formar uma ortodoxia, é fundamental conhecer a heresia. Quem sabe se, lendo, a crença cega vira argumento? Boa semana para todos!

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