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Ler na cama

Muitas das pessoas que vão para a cama estão sofrendo de um mal denominado sono

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2018 | 02h00

Ler é uma coisa maravilhosa. Combate a solidão, a ignorância, os maus pensamentos e a falta de assunto. Imagino um mundo maravilhoso, no qual todas as pessoas leriam religiosamente cinco páginas de um bom livro todos os dias. Não é algo assim tão difícil, mas, sim é uma utopia.

Enfim, ler é sempre bom. Na poltrona da sala, no banco do metrô, na sala de espera, na espreguiçadeira da piscina, num gramado com as costas apoiadas numa árvore, na mesa do restaurante com uma taça de vinho, no ponto de ônibus ou dentro de uma banheira.

Ocorre que, dentre tantas opções, há um lugar onde cerca de 96% das pessoas têm o hábito de ler e que pode ser uma beleza ou pode se revelar um grande equívoco. Esse polêmico lugar chama-se cama. Milhares e milhares de leitores aproveitam o conforto de seus colchões e travesseiros para dedicarem-se à leitura, mas, nesse contexto, coisas estranhas acontecem.

Um estudo de uma renomada universidade norte americana revela que muitas das pessoas que vão para a cama são pessoas que estão sofrendo de um terrível mal denominado sono. E que, ao se dirigirem para suas camas, o tato com a roupa de cama gostosinha costuma intensificar a sonolência, podendo provocar reações diversas.

Os leitores, quando se encontram nessa situação, frequentemente têm o que denominamos de engasgo de parágrafo. O indivíduo lê um parágrafo, mas, devido ao sono, não entende que já leu aquele parágrafo e, logo depois de lê-lo, volta para ele mesmo e o lê outra vez. Todavia, em virtude do sono, não se dá conta de que o leu e lê o parágrafo pela terceira vez. Há registros de pessoas que já leram o mesmo parágrafo 67 vezes na sequência.

Outra situação que vem se revelando corriqueira é aquela do leitor que vai emburrecendo em virtude da sonolência e não consegue entender o conteúdo. Lê a frase: “Bateu na porta do vizinho e explicou o problema no teto” e acha-a extremamente desafiadora, pior que filosofia alemã. Relê. Pensa, com as pálpebras pesadas “como assim, bateu na porta?”. Lê outra vez. “O vizinho no teto?” Pausa. “Explicou o problema pra porta?”. Esse livro é muidogomplexomesm... E adormece.

Outra coisa que ocorre com frequência é a denominada falsa compreensão literária, muito frequente entre as pessoas que se negam a aceitar o cansaço e juram de pés juntos que não estão com sono nenhum. Deste modo, continuam lendo, certos de que estão entendendo absolutamente tudo o que é revelado ao longo do capítulo. Entretanto, no dia seguinte, ao abrirem o livro não compreendem bem quem é essa tal de Estela que apareceu do nada. Nem sabem como a Guiomar, de repente, já está velha. E esse Nilson, de onde veio? Que que eles estão fazendo na Pavuna se a história se passa em Ipanema? Pai Laudelino de Oxalá? Não era todo mundo católico aqui, meu Jesus Cristo? Terrível, a pessoa sente-se um intruso dentro do próprio livro.

Entretanto, nada é mais grave e corriqueiro do que os tombos de livros. Em casos mais simples, a pessoa vai lendo a história com seu livro apoiado na barriga e o vai tombando para trás até alvejar a região do púbis. Em casos mais delicados a pessoa está lendo com o livro apoiado no peito e ele tomba para frente até atingir o nariz do leitor. E, por fim, nos casos que podem acabar no hospital, a pessoa está deitada e estica os braços acima do rosto e, quando adormece o livro despenca lá de cima diretamente no rosto do indivíduo. Dependendo do livro, pode haver fratura nos ossos da face. Autores russos são campeões nessa área.

Alguns escritores podem se ofender com o leitor que adormece durante sua história. Mas a culpa nunca é da narrativa. É da cama. E dos lençóis macios, do colchão de boa qualidade e dos travesseiros ergonômicos. É mais fácil ganhar prêmio jabuti do que ganhar deles.

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