Lepage encena o ouro de Wagner

O encenador Robert Lepage abre hoje a temporada 2010-2011 do Metropolitan Opera House de Nova York, com sua versão do Ouro do Reno, primeira parte da tetralogia de Richard Wagner, O Anel do Nibelungo, cujo ciclo será por ele montado integralmente até 2012, com a condução do diretor musical do Met, James Lavine.

Luciana Barone / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Lepage já havia recebido, em 1990, diversos convites para esta montagem, mas, optando por iniciar-se no mundo da ópera a partir de obras menores, recusou-os. Desde então, dirigiu óperas no Canadá, Japão, França, Inglaterra e EUA, tendo aceitado, em 1995 o convite de Peter Gelb para a nova produção do Anel do Met. O ciclo anterior foi parte do repertório da casa por mais de 20 anos e, tendo por base o mistério em torno dos custos da atual produção (o New York Times estima algo em torno de US$ 16 milhões), tudo indica que a nova montagem deverá seguir carreira longa. Ao Ouro do Reno segue As Valquírias (estreia em 2011), além de Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses, em 2012.

No panorama da contemporaneidade, não seria arriscado afirmar que Lepage é o encenador perfeito para trazer à cena o ideal de obra de arte total, caro a Wagner. Transcendendo a relação recíproca das "três artes irmãs" - dança, música e poesia - que Wagner, no final do século 19, deseja para a Obra de Arte do Futuro, a poética híbrida de Lepage faz jogarem as diferentes expressividades artísticas, criando uma linguagem própria, para sua representação espetacular.

Artista multidisciplinar que é, Lepage está habituado a diferentes linguagens: ao longo de sua carreira, além de sua extensa obra teatral como ator, encenador e dramaturgo, dirigiu cinco filmes, dois espetáculos para o Cirque du Soleil, cinco óperas, concebeu shows para Peter Gabriel e instalações em Quebec.

A ópera parece configurar-se como campo perfeito para o jogo híbrido da poética cênica de Lepage, que afirma: "Cada disciplina tem uma forma de plenitude, mas creio que a ópera é verdadeiramente o que há de mais completo", enfatizando, no entanto, que "é preciso que a ópera aceite o cinema, aceite a televisão, aceite o novo vocabulário".

No Anel do Nibelungo, o jogo entre o canto, a música, a arquitetura e novas tecnologias materializa o universo poetizado por Wagner, que Lepage define como "cosmos". A abertura do Ouro do Reno já anuncia o vocabulário explorado, ao fazer a cenografia dançar ao som da orquestra, remetendo-nos a um enorme piano que, banhado pela luz e pelas imagens projetadas vai, aos poucos, transformando-se no rio que guarda o ouro da trama.

A cenografia é composta por 24 placas retangulares que juntas formam um plateau e que possuem movimentos independentes, possibilitando a formação de diversas combinações - ideia inspirada nos leitmotivs da composição wagneriana. Receptora das imagens que interagem com o movimento e com a voz dos cantores, a cenografia é suporte não apenas para os ambientes representados, mas para as ideias contidas na estória e sua materialização poética. Assim, é ela que nos dá a grandeza dos gigantes, configurando também a enorme escada que leva Wotan e Loge à terra dos Nibelungos.

Interessado em montagem que fizesse uso de materiais modernos, mas se pautasse pela fidelidade às origens da obra, Lepage retornou às mitologias que teriam inspirado Wagner. Em viagem à Islândia, encontrou grande fonte de inspiração, pelas impressões geográficas e culturais que teve, enfatizadas por um livro sobre a presença da Islândia no Anel de Wagner, com o qual teria contato posteriormente. A geologia do país, que responde ao movimento do continente pela separação das placas tectônicas, foi o ponto de partida para a concepção cenográfica: a Islândia é um país de gelo, sob o qual há fogo, possuindo um solo bastante particular, que, para Lepage, "está sempre em via de falar".

LUCIANA BARONE É DOUTORA EM MULTIMEIOS PELA UNICAMP, COM TESE SOBRE A POÉTICA DE LEPAGE (2007). É PROFESSORA ADJUNTA DA FACULDADE DE ARTES DO PARANÁ. ACOMPANHOU COMO ESTAGIÁRIA ESTA MONTAGEM DE LEPAGE DO OURO DO RENO, EM NY.

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