Leon Cakoff e a arte de ver em dez episódios

Criador da Mostra idealizou e atua em dois curtas que compõem a coletânea Mundo Invisível

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h07

Menos de dois anos depois de sua morte - em 14 de outubro de 2011 -, é tempo de reverenciar, mais do que simplesmente lembrar, Leon Cakoff. O criador da Mostra de Cinema de São Paulo teve um papel destacado na resistência cultural à ditadura militar e também no redesenho do mercado de cinema do País, mostrando que há um segmento do público para o chamado cinema de arte. Cakoff realizou 34 mostras. Na 35ª, quem prosseguiu com a Mostra foi sua companheira, de arte e vida - Renata Almeida. Cakoff morreu pouco antes da 35ª Mostra, que exibiu, de forma improvisada - ainda não estava acabado -, um filme em episódios que nascera dele.

Cakoff conseguiu reunir dez importantes autores de cinema de diferentes nacionalidades para seu projeto Mundo Invisível. Com o título indica, as histórias tratam todas da invisibilidade no mundo moderno. Face ao ritmo vertiginoso das grandes metrópoles, o que resta de espaço para o humano? Os autores que respondem à indagação proposta por Cakoff são Manoel de Oliveira, Jerzy Stuhr. Guy Maddin, Gian-Vittorio Baldi, Marco Bechis, Wim Wenders, Maria de Medeiros, Theo Angelopoulos, Atom Egoyan e Laís Bodanzky. Todos amigos da Mostra e o grego Angelopoulos, como Cakoff, já desaparecido (no começo do ano passado).

Todos os episódios foram gravados com tecnologia digital. Nenhum tomou mais do que horas, ou um dia ou dois, mesmo que a conceituação seja o resultado de anos de pensamento de grandes artistas. O próprio Cakoff aparece como ator em dois episódios - e são dos melhores. Do Visível ao Invisível é assinado por Manoel de Oliveira; Yerevan - O Visível, por Atom Egoyan. O primeiro consegue ser tão humorado quanto o tom do segundo é grave - mas Egoyan não deixa de possuir certa dose de humor e Cakoff, que era seriíssimo, não deixa de projetar uma dimensão clownesca.

Oliveira imaginou o encontro de dois amigos em plena Av. Paulista. Um é português, de passagem pelo Brasil - Ricardo Trêpa, neto do grande cineasta. O outro, brasileiro, Leon. Tentam conversar, mas os celulares não param de tocar. Como medida extrema, se telefonam, para enfim trocar uma ideia. Só assim a comunicação é possível e eles falam da vida, da ética, do amor, da amizade e dos tempos que correm. Egoyan poderia, quem sabe, ter invertido o título de Oliveira - Do Invisível ao Visível.

Um homem, Leon Cakoff, vai a Yerevan, capital da Armênia, para resgatar a memória do avô. Leva um cartaz e uma série de fotos. Instala-se na praça central da cidade. Termina por se comunicar com um idoso que identifica, nas imagens, um amigo morto naquela mesma praça. Cakoff e Egoyan, ambos de ascendência armênia, dão visibilidade ao massacre perpetrado pelos turcos no começo do século 20. A história é a do avô de Cakoff, mas Egoyan se apropriou dela porque também possui seus mortos no genocídio armênio (e até abordou o assunto num longa de ficção, Ararat).

Os demais episódios prestam tributo ao público de cinema, quando o polonês Stuhr filma os espectadores que assistem a seu longa O Tempo de Amanhã, na Mostra; revelam o cemitério da Consolação pelos olhos de um 'gato colorido', personagem do curta de Guy Maddin; documentam o que restou da Mata Atlântica no Parque do Trianon, no coração da Paulista, em Tekoha, de Marco Bechis; colocam em discussão a arte do ator, como ele se transforma no personagem, em O Ser Transparente, de Laís Bodanzky; identificam, nos grafites, um tanto do submundo no centro da cidade em Céu Inferior, de Theo Angelopoulos.

No fim dos anos 1960, logo após Teorema, Pier-Paolo Pasolini e o produtor Gian-Vittorio Baldi queriam filmar a vida do apóstolo Paulo numa grande cidade. Décadas depois, Baldi concretiza, enfim Fábula - Pasolini em Heliópolis. Wim Wenders filma a percepção de três crianças cegas em Ver ou Não Ver, expressando a São Paulo que elas captam por meio do projeto de visão residual de uma especialista da Santa Casa de Misericórdia da cidade. E, em Aventuras de Um Homem Invisível, Maria de Medeiros, presente nos palcos da cidade com a peça Aos Nossos Filhos (Sesc Santana), segue o garçom que carrega uma bandeja com o café da manhã pelos corredores de um hotel de luxo. O cinema, dizia Nicholas Ray, é a melodia do olhar. A invisibilidade pode ser um problema social. A visibilidade, o dar a ver, é a própria essência do cinema.

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