Leo Lama conclui trilogia "Dores de Amores"

Os atores Malu Mader e Taumaturgo Ferreira passaram boa parte do ano de 1989 e anos subseqüentes sobre uma cama. Não reclamaram. Como o casal protagonista de Dores de Amores, de Leo Lama, tiveram público e dinheiro ao tematizarem sexo e crise na relação. Agora é a vez de Marcelo Fonseca e das atrizes Thais Pimpão e Eliana César esquentarem o lençol que o dramaturgo e diretor Leo Lama estende sobre nós. Vêm aí Dores de Amores II e Dores de Amores III, que vão ocupar em dias alternados o palco do Teatro Augusta, de sexta a domingo.Com ambas as estréias, o filho de Plínio Marcos e Walderez de Barros fecha aos 36 anos sua trilogia para teatro. "Geralmente minhas peças falam de amor e relação de casal. Minha preocupação é questionar os modelos impostos de felicidade a homens e mulheres. Percebo que hoje é impossível dividir o mesmo teto com alguém", diz Lama. Ele afirma pretender discutir sem didatismo o que chama dos modelos "fake" do casamento, como a posse, a traição, a fidelidade forçada. "O verdadeiro amor está além dos desejos do corpo", dita. Nos dois enredos, os temas são colocados de forma simples, divertida e, por vezes, escrachada.Lama também é autor de peças como Videoclip Blues e O Amor de Madalena, mas depois do sucesso estrondoso de Dores de Amores, conta que ficou meio perdido. "Eu ganhei muito dinheiro e era chamado para escrever novelas, enquanto meu pai não conseguia ter uma peça sua montada. Eu acabei me sentindo proibido de fazer sucesso." Nos últimos anos anos, o dramaturgo foi ombudsman de uma agência de publicidade e diretor do programa de Otaviano Costa, na rede Record.Em Dores de Amores II - O Andrógino, a inversão dos papéis sexuais do casal invade o território dos desejos moralmente interditos e há uma dificuldade do par em lidar com a continuidade de suas novas práticas sexuais. Em Dores de Amores III - A Nova Eva, sobre a cama o casal vive a "loucura" de uma revelação "divina" e quando os desentendimentos chegam ao paroxismo, resolvem se distanciar. Mais longo, o texto que encerra a trilogia de Lama, sob uma pontuação que o autor define como trágica, oferece ao espectador uma bizarrice mítica: ela, apresentadora de um programa infantil de televisão, afirma ter engravidado de um objeto sexual e de estar gerando um feto no ouvido. Ele, um publicitário, mais do que pasmado, destila seu ódio porque não quer acreditar no acontecimento sobre-humano."Quando escrevi Dores de Amores I, achei que tinha em mãos uma tragédia. Fiquei meio chocado quando na estréia o público não parava de rir", recorda Lama, acrescentando que o ser humano consideravelmente reprimido acaba por rir de nervosismo. "Eu tinha 21 anos e escrevi a peça numa sentada, porque tinha terminado uma relação. Depois joguei no lixo. Minha mãe encontrou a peça, leu e, depois de uma pausa dramática, disse que eu não poderia jogá-la fora." Com ela, Lama ganhou o Mambembe como autor revelação de 1989.Conferindo valor à memória familiar, Dores de Amores III explicita a morte do pai do protagonista e tangencia a idolatria pela mãe. Plínio Marcos morreu em 1999.O ator e diretor Marcelo Fonseca (Beatriz Cenci e Anjos de Guarda) aceitou fazer o protagonista masculino nas duas versões. "Mesmo sendo gêneros diferentes, o cômico e o tragicômico, há uma esquizofrenia do mundo moderno pontuando ambas as peças", define. "É bom ser dirigido por Lama porque somos amigos há mais de dez anos", completa Fonseca, que vai dividir o palco com Thais Pimpão, nas sextas e sábados, e aos sábados (segunda sessão) e domingos, com Eliana César.

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