Leo Bassi, um palhaço engajado

O homem sério, de terno escuro e gravata, que sobe ao palco oferece à platéia experiências de tensão, medo, ódio, excitação e muitas risadas. Tudo concentrado num curto período de tempo."Arrepios são importantes", ensina o comediante italiano Leo Bassi, de 50 anos. De início, ele manipula o público, que acaba rindo de si mesmo. Depois, se expõe ao limite do ridículo, para mostrar que palhaço é um homem forte, livre, capaz de trazer alguma consciência à sociedade. O show é uma catarse.Bassi foi uma das atrações do Planeta Circo, um festival de exploração e experimentação, com artistas circenses estrangeiros e brasileiros, patrocinado pelo Centro Cultural Banco do Brasil a preços populares, em julho na capital da República. Nesta semana, sexta e sábado, o comediante estará, pela primeira vez, em São Paulo para apresentação de Instintos Ocultos, no Sesc Santo André. "A mim me encanta o capital humano no Brasil", diz Bassi, que representa a quinta geração de uma família de artistas circenses.Se fosse candidato à sucessão presidencial, brinca, tentaria dar ao povo brasileiro mais orgulho, crença em si mesmo e em sua cultura. Em plena era dos efeitos mirabolantes nos cinemas e TVs, Bassi consegue aumentar a adrenalina na platéia apenas com seus discurso e truques. O contato direto entre público e o palhaço é de arrepiar. Ele concedeu ao Estado a seguinte entrevista:No seu espetáculo há uma explosão de risos, mas você também provoca pânico na platéia. Leo Bassi - Eu creio que o humor é oposição à tragédia. Sem tragédia não se estabelece o humor. Então, em meus espetáculos, trabalho muito com tensão, com provocação, porque depois o público vai rir mais com a piada. Há uma liberação.Nos shows, você se diverte mais do que faz rir? Para mim, palhaço é um homem que, primeiro, quer rir e depois fazer o público rir. Faço algo de que gosto e mostro que não estou a serviço do público. Temos palhaços demasiadamente humildes. Quero mostrar ao público que gosto de viver, tenho opiniões políticas e opiniões na vida. Estou no palco porque gosto e não porque é minha profissão.É uma concepção de palhaço? Era assim antes da TV e do cinema. O palhaço era um homem com liberdade. O público amava o palhaço porque ele era um homem forte que tinha a sua vida. Em minha casa, ainda conservo cartazes antigos advertindo "espetáculo impróprio para crianças". No século 19, a gente não pensava em circo para crianças por ser muito forte. Poderia assustá-las. Depois, o circo caiu em decadência e agora é só para crianças.Você fala de tudo com despudor. Originalmente, os palhaços também tinham essa liberdade de fazer críticas à sociedade? Sim. O bufão, nos séculos 12 a 14, era um homem vulgar. Era palhaço, mas era o único homem que podia dizer a verdade. Tinha a sua opinião. Um bufão não tinha dinheiro nem poder. Não tinha nada a perder. Quando se tem coisas a perder, não se diz a verdade, porque dá medo. Antes, o bufão trabalhava com o rei e podia criticar e dizer sua opinião sem ser punido. Bom, alguns bufões foram assassinados por terem falado demais. Para mim, é importante voltar a incorporar o espírito do bufão. Não é bom para a sociedade quando os cômicos estão abusando do poder. Sociedade sã e boa é a que dá liberdade aos cômicos para falar às claras.Há um ano e meio, você fazia sucesso na TV espanhola. Por que desistiu desse meio de comunicação? Tenho medo da TV: de seu poder, de sua propaganda e da influência do patrocinador. Quando se está ali, não se pode dizer coisas contra o sistema porque você faz parte do sistema e necessita de patrocinador. Sou muito conhecido na TV por fazer provocações e piadas políticas. Passei dois anos e meio na TV. Por causa da publicidade, me aconselhavam a não dizer certas coisas e políticos pediam para eu não exagerar. Cansei. Voltei ao palco, ao espetáculo direto com o público, para dizer o que quero, sem problemas. Quer dizer, também não posso falar mal do Banco do Brasil, que me convidou para esta turnê... (risos)Você transmite tanto tensão quanto alívio. Luto contra a indústria do divertimento, como Walt Disney, películas americanas e o Ronald McDonald´s. Isto é indústria sem coração, só quer vender, fazer dinheiro. Creio que o papel da gente do circo e dos atores é lutar contra esse sistema. Ao final do meu espetáculo, tenho dito que se precisa buscar inocência e mistério, não só comercialismo.O Ronald McDonald´s é uma decepção? Sim. É aproveitar toda a tradição do palhaço só para fazer propaganda. Muito simpático, só porque quer vender mais hambúrguer. Palhaço tradicional é simpático para as crianças, mas assim vira uma hipocrisia, um engano. Isso vai contra a minha família e o espírito do circo. A única coisa que vendemos é o ingresso, nada mais. Não há publicidade. Ronald McDonald´s é a imagem de como a indústria pode apropriar-se do espírito da criação e mudar.Você já fez shows em todos os continentes. Como é o humor de cada povo? Uma piada para um americano não é igual para um brasileiro. Cada região tem o seu humor e a sua maneira. Este contato humano que existe aqui, me dá muita liberdade a nível de humor. No Brasil se pode fazer humor sobre televisão e muitos temas. Por exemplo, nos EUA o problema de pudor sexual é terrível. Na Índia, a população não ri, mas é irônica e gosta de falar muito mal de seu país. Porém, tem a religião hindu muito forte e há locais em que não se pode falar de religião. Quando chego a um país peço informações políticas e sobre a situação econômica, depois converso com taxistas e pesquiso a reação. É parte do meu trabalho. Quando se faz uma pessoa rir, você conhece essa pessoa. Para mim é o único que importa. Um dia, vamos todos morrer. O que importa é a acumulação de experiência humana, não é a acumulação de dinheiro ou de bens materiais.Como palhaço "militante", você tem a intenção de deixar algo para sempre na mente do público? Sim, quero transmitir que existe um bem maior do que o material, que é o bem do contato humano, de poder surpreender outras pessoas, criar mistérios. Quero viver mais momentos assim. Se entre 150 presentes, 100 pessoas só dão risadas, outras 49 deixam o circo pensativas e apenas uma pessoa tenha sido tocada - em sua cabeça durante muitos anos ficará a recordação de um homem de 50 anos com gravata, que fazia coisas raras e falava outro idioma - a mim me basta. Não necessito mais.Leo Bassi. Sexta e sábado, às 20h30. R$ 12,00. Sesc Santo André - Teatro. Rua Tamarutaca, 302, tel. 4469-1250.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.