Leny e Paquito, irmãos no jazz

ESPECIAL PARA O ESTADO

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2011 | 00h00

NOVA YORK

Foi amor à primeira audição. Aconselhado pelo trompetista brasileiro Claudio Roditi, em 1983, Paquito D"Rivera foi conhecer Leny Andrade, que se apresentava pela primeira vez no Blue Note, casa de jazz em Nova York. O saxofonista cubano ficou pasmo e garantiu que naquela noite encontrou uma das maiores cantoras de todos os tempos. E uma irmã. "Não temos culpa se as nossas mães nos pariram em lugares diferentes", confirma Leny ao Estado. "Somos irmãos de coração." Embora Leny seja aquariana e Paquito, geminiano, a cantora confessa terem muito em comum, do comportamento assertivo à exigência com a própria carreira.

Músicos consagrados de jazz, gênero que os aproximou num primeiro momento, Leny e Paquito vêm há quase 30 anos quebrando uma norma no mundo musical - a falta de diálogo entre os músicos cubanos e os brasileiros. "Cubanos e outros caribenhos de língua espanhola rejeitam a música brasileira", informa Paquito.

Estabelecido nos EUA desde os anos 1980, o saxofonista admira as composições brasileiras. "Elas têm a fórmula mais bem balanceada entre ritmo, melodia e harmonia. Ritmando com delicadeza, os compositores populares usam as harmonias mais sofisticadas e criam canções românticas que nunca são ridículas." Ele lamenta o fato de que a barreira do idioma tenha privado os latino-americanos de uma apreciação mais ampla da música brasileira. O problema das línguas diferentes não atingiu Paquito nem Leny, que morou no México nos anos 1960.

A relação fraternal resultou numa série de encontros musicais. O mais recente em Curitiba, em janeiro, quando tocaram com o Trio Corrente em homenagem aos 68 anos de Leny. Paquito saiu de New Jersey, onde mora e mantém uma coleção de fuscas, somente para se apresentar ao lado da amiga. Agora é a vez de Leny retribuir a visita. Nos dias 1.º e 2 de abril, sobem ao palco do Allen Room, do Jazz at Lincoln Center, para o show Brazilian Nights: Leny Andrade with Paquito D"Rivera.

Embora sejam rotulados como músicos de jazz, eles vão apresentar repertório mais amplo: bolero, samba e bossa nova. "O gostoso é que não tenho precisado cantar em inglês para os americanos gostarem de mim", ela diz. Paquito programa tocar For Leny, música instrumental de sua autoria. Leny deve escolher Como Fue e a Night in Tunisia. Klaus Mueller (piano), Sergio Brandão (contrabaixo) e Helio Schiavo (bateria) formam o trio de acompanhamento.

As agendas cheias impedem que um disco seja gravado. "Mas tudo pode acontecer", adianta Leny, que volta a NY em agosto para apresentações no Birdland.

Ainda em turnê para divulgar Alma Mia (2010), disco de boleros, Leny está de olho no Grammy Latino deste ano. Acha que tem chances de ganhá-lo como CD. Em breve, ela lança um site oficial, com informações da sua carreira de mais de 50 anos, e um livro pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial.

O começo da carreira foi no fim dos anos 1950, no Beco das Garrafas, lugar fundamental para o nascimento da bossa nova. Desde então, tem tocado com os instrumentistas brasileiros mais importantes. Pianista, ela costuma dizer que é "um músico que canta".

Ao falarem da carreira e da amizade, Leny e Paquito enveredam pela política. Quando foi entrevistada pelo Estado, Leny estava inebriada com a viagem do presidente dos EUA ao Brasil. Segundo ela, a simplicidade de Obama despertou o respeito dos brasileiros. Conhecido pela dureza dos comentários políticos, Paquito afirma que "embora pareça que Lula fez uma boa administração, ele teve o mau gosto de comparar os presos políticos de Cuba com criminosos comuns no Brasil".

Quanto à nova presidente, Dilma Rousseff, ele diz que "as mulheres podem fazer tão bem ou tão mal quanto qualquer homem". A pressão sanguínea de Paquito sobe quando menciona o governo cubano. Para ele, Raúl Castro só fez piorar a situação da ilha, provando a tese de que "o comunismo não é como um bom vinho nem um violino Stradivarius que melhoram com o tempo".

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