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Lendo o jornal

Jornais informam e informar é pôr em ação a igualdade de todos perante os eventos engendrados por suas sociedades

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 03h00

Qual é o papel do jornal na vida das sociedades? É óbvio que tudo começou em Roma, mas só pode haver “jornal” quando há imprensa (um meio mecânico de múltipla reprodução) e letramento. 

Quando uma população sabe ler e lê cotidianamente em busca de alento, de remédio e, sobretudo, de informação e novidade. A palavra “newspaper” é significativa, porque o jornal diário (o “daily news”) só pode existir num sistema em constante mudança. O jornal foi o primeiro anunciante de novidades manifestas ou bloqueadas em sociedades aristocráticas nas quais o ideal era a permanência e o que não cabia nas normas era visto como intrigas, aleivosias, ladroagens, segredos e fuxicos. O jornal “fura” ou abre o sistema inventando uma opinião impessoal: a opinião pública. 

Jornais informam e informar é pôr em ação a igualdade de todos perante os eventos engendrados por suas sociedades. Ou seja: o jornal é a grande vacina contra fuxicos ou meias-palavras quando traz à luz do dia aquilo que os poderosos (ou mandões, os ricos, as elites e as celebridades) fazem na escuridão de seus privilégios e relações. 

São os jornais, com seus “cadernos” e divisões, que articulam e legitimam que tal ou qual desastre, decreto, política, interesse e movimento pertence a este ou àquele domínio da realidade e quais são as suas implicações visíveis. 

Nesse sentido, se o jornal tem colunistas voltados para a intriga, ele tem também colunas destinadas a dar sentido ao que o próprio jornal veicula. A primeira página retorna na segunda, transcrita com menos estardalhaço e mais compreensão. O fato chocante, irracional ou inusitado da manchete, reaparece como algo plausível. 

Uma das maiores diferenças entre o livro e o jornal jaz nos elos entre a informação e o modo como ela é impressa. Nos livros, não há letras “garrafais”, que obrigam a focar um evento. Os destaques estão nos capítulos, mas não há, tirando o título, uma manchete ou “primeira página” na qual se estampam eventos capitais. Nessas “páginas de rosto”, eventos tornam-se episódios estruturais justamente porque os jornais assim os classificam. Ademais, livros não falam apenas do novo, mas – contrapondo-se aos jornais – elaboram questões permanentes debaixo da imaginação dos seus autores. Jornais estampam o real; livros, o ficcional. Ademais, o jornal é um produto estruturalmente coletivo e os livros pertencem aos seus autores.

Os primeiros escritos sagrados foram gravados em argila, mármore, bronze e, com Gutemberg, massificados em papel. Foram, é claro, os códigos legais e os mandamentos religiosos. O jornal tornou familiar aquilo que os livros isolavam das rotinas comuns.

Os jornais criaram o jornalismo e a imprensa inventou um quarto poder ao lado do executivo, do judiciário e do legislativo. Eles são a porta da liberdade sem a qual a democracia não seria possível.

Os elos escusos, as negociatas – as intenções “impublicáveis” – são obviamente elementos de controle do poder dos poderosos e indispensáveis instrumentos de controle moral ou social. A relação entre “fuxico e escândalo” é – sem dúvida – o cerne, se não a razão de ser do jornalismo no seu papel explícito de revelar e de reforçar quem pertence à comunidade da qual o jornal é um “porta-voz” – ou o anjo anunciador do que está oculto ou está por vir. O escândalo e a corrupção definem um país. No nosso, os privilégios são responsáveis por vergonhosas reversões morais.

Sou de um tempo no qual todo mundo tinha medo de “sair no jornal”, pois a notícia escrita num universo como o brasileiro, repleto de analfabetos natos, de burros doutores e de jumentos pós-graduados, o jornal era mais um instrumento de denúncias interessadas do que um veículo confiável e honrado de informações. Nele, conforme me ensinou meu saudoso pai, havia uma chuva de novidades e os filtros dos colunistas. Alguns devidamente nazificados pelo seu radicalismo, muitos pela sua empáfia e ignorância, mas havia um punhado deles capazes de intuir, explicar e informar o lugar social e político preciso do fato que a primeira página estampava. 

Papai não era sociólogo, mas tinha o tirocínio e a sensibilidade para me ensinar como os colunistas complementavam os repórteres e editores. E como o jornal integrava a intimidade da casa (onde estavam os seus leitores diários e leais) e o mundo insolente e inesperado da rua. Ele repetia: filho, jamais se esqueça que você somente entende a manchete quando lê a coluna. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

 

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