Juvenal Pereira/Estadão - 17/09/1992
Juvenal Pereira/Estadão - 17/09/1992

Leminski mostra sua audácia ficcional também nas biografias

Volume reúne textos do poeta sobre Bashô, Trotski, Jesus e Cruz e Souza

Ricardo Corona - Especial para o Estado , O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2013 | 21h13

É conhecido que Paulo Leminski manifestou sua vontade de que as quatro biografias que escreveu fossem reunidas em um único volume cujo título ele antecipou: Vida. Por pouco o poeta não viu seu desejo se realizar. Em 1990, ano seguinte à sua partida, a Sulina publicou-as pela primeira vez. Agora a Companhia das Letras põe em circulação em um único livro as biografias: Matsuó Bashô: a Lágrima do Peixe (1983), Cruz e Sousa: o Negro Branco (1983), Jesus a.C. (1984) e Trotski: a Paixão Segundo a Revolução (1986), que, nesta ordem, haviam sido publicadas originalmente em edições individuais pela Brasiliense.

O poeta estava certíssimo. Ler suas biografias uma após a outra deixa ainda mais perceptível a sua audácia ficcional. Uma radicalidade que é difícil de encontrar em literatura do gênero. Cabe aqui uma observação: Vida merece ser discutido ao lado de narrativas biográficas que vêm sendo produzidas na contemporaneidade que se aproximam da novela autobiográfica, da ficção com enxerto biográfico, feita a do mexicano Mario Bellatin, de Biografia Ilustrada de Mishima. Guardadas as diferenças, um tipo de narrativa da qual podemos dizer que Leminski é um dos precursores.

Em Vida, a máquina de narrar leminskiana em calibragem medida para que “verdades”, por um lado, mantivessem-se falíveis aos limites de fundo histórico, e, por outro, potencializassem-se no processo criativo. Alquimia textual para poucos e investigando sempre no limite que busca afirmar a vida como matéria extraordinária. A vida é gesto em acontecimento e, por vezes, acesso direto à história. Deste modo, objeto que requer escritas que possam satisfazer a esse rastro que é a vida em seu processo, especialmente quando este é, em si, criativo, inventivo, radical. Incluídos aí, claro, o riso e a desconstrução de si mesmo. “Bios”, do grego, quer dizer “vida”, e “graphein”, “escrever, arranhar”. Em Leminski, a segunda acepção do vocábulo – “arranhar” –, em nada – cogito eu –, pareceu-lhe desconexa.

A ideia de rasura é um agudo sentido do inacabado que expõe a palavra (graphein) à sua vulnerabilidade. Ao narrar estas vidas, entrou em jogo a aproximação e o distanciamento do verbo (verbu). Ou, mais precisamente: do seu referente intelectivo que se supõe imanente por querer registrar a verdade: “dou minha palavra”. A armadilha do verbo sempre está armada, pois sugere a quem escreve que o que se está escrevendo é à vera, ou seja, pra valer, a sério, portanto. Sobretudo em escritas de vida. As biografias escritas por Leminski assumem um pertencimento mais propriamente da literatura, da escrita criativa, ao passo que, maravilhosamente, não se furtam do acesso à história como entorno destas vidas.

Percebe-se que em Vida, desde o título até a poesia que envolve todas estas vidas, o autor se avizinhou de seus biografados e fez desta zona de vizinhança, ou melhor, destes estratos de vida, uma energia (um devir) para a sua escrita.

Ao lê-las não há como não entrar, por exemplo, nos quatro feelings preparados por Leminski para Cruz e Souza: Sabishisa, spleen, banzo e blues. E, no caso de Jesus, o que há é um profeta-poeta de antes da ideia de Cristo. A busca ao vaga-lume do haikai é a caminhada até Bashô. E Trotski? Este é um personagem de um quase romance policial, além de atuante maior da revolução russa, claro.

Leminski escreveu com extratos biográficos que melhor puderam dizer da radical experiência destas quatro vidas, o que, nas palavras de Manoel Ricardo de Lima, é “pedir providências e apontar como a vida poderia/deveria se manifestar através de uma radicalização política da arte como experiência”. E o fez num gesto duplamente amoroso, ou seja, com admiração e ousadia criativa.

É que, distraidamente, certo dia Leminski escreveu: “Podem ficar com a realidade / esse baixo astral / em que tudo entra pelo cano // eu quero viver de verdade / eu fico com o cinema americano”.

RICARDO CORONA É POETA E AUTOR DE CURARE (ILUMINURAS)

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