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Lembranças de fins de tardes com Tabucchi

O fotógrafo Marcio Scavone me telefonou comunicando a morte da Tabucchi na tarde desse domingo. Fiquei paralisado, estava vendo o jogo do Corinthians, me desinteressei, triste, emocionado. Conheci Tabucchi em 1973, quando ele começou a traduzir Zero para o italiano, a pedido da editora Feltrinelli e da professora Luciana Stegagno Picchio, de quem ele era aluno. Tabucchi estava em Pisa e uma dia bati na porta dele. Tinha um tempo livre, fui para lá, fomos repassando as dúvidas que ele tinha em relação ao livro, que eram muitas, principalmente em relação ao linguajar afro que aparece em determinadas cenas. Era casado com Zé, Maria Jose de Lencastre, linguista e grande especialista em Fernando Pessoa (ela é autora de uma ótima fotobiografia do poeta português), convivemos quase um mês. Não me deixou ir para hotel, fiquei na casa dele.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2012 | 03h08

Trabalhávamos e saíamos à tarde de bicicleta pelas estradas provinciais da Toscana, intensamente coloridas. Naquele tempo, jamais imaginava que ele seria escritor, não me falava nada. Magro, irônico, sarcástico, às vezes divertido, sério. Os fins de tarde eram deliciosos. Comíamos vez ou outra no restaurante de um amigo dele, localizado na sede do Partido Comunista de Vecchian, onde Tabucchi morava. Até hoje, era o mesmo endereço em Via Dei Magano, apesar de ter casa em Paris e Lisboa. Era comovente para mim ver o carinho com que ele traduzia meu livro para o italiano, preocupado com cada palavra, expressão, sempre encontrando soluções felizes. É a melhor tradução de Zero, em toda a carreira desse livro. Paradoxalmente seria a primeira edição do livro, uma vez que aqui ninguém tinha coragem de publicá-lo, a censura estava em cima.

Tradução primorosa feita por um escritor, mais do que um tradutor. Ele me perguntava sobre palavras, expressões, queria que eu explicasse contextos. Exigia desenhos para explicar certas situações. Um homem minucioso. O texto em italiano é duro e poético, poético. A partir dali nos encontrávamos de tempos em tempos na Itália. Depois, quando Tabucchi começou a publicar seus livros - Morto de Porto Pim, Réquiem, Afirma Pereira, Sonhos de Sonhos (adoro o título e o livro) e outros -, entendi por que ele tinha sido um grande tradutor. Fiquei feliz por ele ter se apaixonado pelo meu romance e o tratado com tanto carinho.

Velozmente ele se transformou no maior autor de língua italiana contemporânea. Sempre livros curtos. Em breves cartas, rápidos telefonemas nos falávamos, a amizade de pé, ele amigo, solidário, engraçado.

Na última Flip, deveríamos estar lado a lado. No último momento, ele avisou que não viria ao Brasil. A alegação era a não extradição de um terrorista italiano. A Itália e Tabucchi se indignaram. Diante disso, ele avisou: "Não quero ir ao Brasil falar mal desse presidente que vocês acham bom, mas não é". E teve palavras ásperas em relação ao presidente que teve aquele ato insensato de não libertar o sujeito.

Na Flip, fiz a conversa com Contardo Caligaris e ambos protestamos e sentimos a ausência de Tabucchi. A Flip e o Brasil perderam. Agora me pergunto: será que ele já estava doente? Tabucchi foi um grande homem. Magro, sempre me pareceu frágil, desamparado, ainda que os olhos fossem vivos, espertos. A literatura perde um grande escritor, um estilista. A Itália perde um enorme escritor. Perco um amigo a quem devo uma tradução com paixão, amor e poesia.

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