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Lembranças amargas de uma filha ilegítima

‘Memória por Correspondência’, já na quinta edição lá fora, chega ao Brasil para revelar a infância da pintora colombiana Emma Reyes

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2016 | 07h27

Embora não seja um romance, mas uma autobiografia em formato epistolar, Memória por Correspondência tem um leve sotaque de ficção inglesa do século 19, especialmente pela semelhança entre a história da pintora colombiana Emma Reyes (1919-2003) e a vida dos garotos pobres de Dickens, como observou Andrés Amorós. Ela passou a infância correndo atrás de um pedaço de pão, único alimento, aliás, que ela e a irmã Helena comiam quando María, responsável pelas duas, saía para faturar fora do bairro popular em que moravam.

É essa mesma mulher, ao mesmo tempo amorosa e irresponsável, que um dia abandonará as duas numa estação de trem, decidindo o destino de ambas, encaminhadas a um convento de freiras que mais se assemelha a um hospício. Lá, como nos melodramas mexicanos, as irmãs são submetidas ao bullying infernal das colegas, especialmente Emma, a mais feiosa e ainda premiada com um olho defeituoso, o que não a impediu de seguir a carreira de pintora, mudar para a França e virar amiga de personalidades como Sartre, Picasso e Pasolini.

Emma Reyes foi assistente de Diego Rivera no México, um dos países pelo qual passou, após fugir do convento, fixar residência na Argentina e ganhar uma bolsa para estudar arte com André Lhote em Paris. No meio do caminho, casou-se com o pintor Botero e foram parar no Paraguai. O livro, porém, não chega até esse ponto.

Emma conta situações absurdas nas 23 cartas enviadas ao amigo e historiador Germán Arciniegas (1900-1999), como a da passagem por uma pensão miserável em Bogotá, onde os infelizes moradores tiveram de fazer uma vaquinha para comprar uma panela. Um dia, um deles, policial, atirou na mulher, que caiu sobre o caldeirão, deixando todos sem comida. Seria cômico se não fosse real.

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