Lembrança do primeiro medo

Lembrança do primeiro medo

Admiro a coragem dos atores. Alguns deles são tímidos, estremecem antes de incorporar ou interiorizar um outro caráter, e já não são eles mesmos quando representam uma personagem que em nada lhes assemelham.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2010 | 00h00

Quando morava na Europa, me inscrevi para trabalhar num filme e, por azar, fui selecionado. Eu era um pouco mais que um figurante desse filme, devia participar de duas sequências de cenas que duravam uns trinta segundos. Esse meio minuto de filmagem foi um calvário, fiquei gago, esqueci trechos do texto que havia decorado e ensaiado, como se as palavras tivessem sido apagadas da minha memória; mas não era uma falha da memória, e sim o medo diante da câmera, esse ciclope de vidro manipulado por um invisível olho humano.

O fato é que eu jamais poderia ser um ator, nem mesmo um ator mudo, silencioso, encenando apenas com gestos ou com o olhar. Foi naquela época que comecei a sondar de onde vinha minha aversão a uma lente dirigida para mim. Na verdade, não se tratava de aversão, e sim de medo.

Uma das primeiras lembranças da infância é a memória do medo, eu ouvia histórias de crianças que tinham se afogado no Rio Negro ou no Amazonas, crianças que saltavam do galho alto de uma árvore, mergulhavam num rio e nunca mais apareciam. Diziam que essas crianças tinham sido devoradas por bichos gigantescos, peixes fantásticos que abocanhavam suas pequenas vítimas e as arrastavam para um lugar profundo e escuro. Essas histórias eram contadas em casa, e aos 5 anos de idade você acredita em tudo.

Lembro o domingo em que fui com meus pais a um dos balneários de Manaus, um clube de campo banhado por um rio de águas limpas e pretas. Um tronco comprido unia as extremidades do rio, e minha mãe teimou em tirar uma foto do filho sentado no meio dessa ponte estreita e precária. Meu pai me conduziu ao lugar indicado pela fotógrafa. Sentei sozinho nesse lugar, que dividia a ponte; meus pés nem roçavam a água. Quando meu pai se afastou, tive a impressão de que as margens do rio estavam muito longe de mim. Não conseguia olhar para baixo, o rio era um abismo tenebroso. Então ouvi minha mãe gritar: "Ri, filho. Ri e olha para cá."

Não ri, e quando olhei na direção da voz materna, vi o cabelo da fotógrafa, o rosto tapado por uma câmera enorme. O olho de vidro era também enorme, tudo era enorme naquela manhã de sol, inclusive meu medo. Eu não sabia nadar. E no momento em que estava sendo fotografado, recordei as histórias de crianças afogadas e depois engolidas por um bestiário fluvial. Em poucos segundos, senti mais medo do que sentiria nas futuras brigas de rua, nas batalhas bárbaras e violentas entre estudantes de escolas rivais durante o desfile de 7 de Setembro; senti muito mais medo do que sentiria nas passeatas e pichações na época da ditadura. Talvez por que o medo na infância seja definitivo, profundo, único.

Quando a fotografia foi revelada e ampliada, minha expressão de pavor frustrou minha mãe, que desejava mostrar às amigas a imagem do filho corajoso, rindo à beira de um abismo. A vaidade materna pode gerar traumas no filho.

Aprendi a nadar nas margens daquele afluente do Negro, mas sem a presença de um olho vigilante. Com o passar do tempo, percebi que não havia feras fantásticas no fundo das águas, que a escuridão aquática era um atributo da natureza, e que era possível atravessar a nado aquele rio que, na infância, tinha sido perigoso e ameaçador.

Um dia percebi que o rio não era um abismo, mas então eu já não era uma criança, e nem acreditava em todas as palavras dos mais velhos.

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