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Luis Fernando Verissimo
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Lembra futebol?

Os times precisavam avançar trocando passes, driblando os jogadores adversários, que tentavam tirar a bola deles, chegando o mais perto possível do gol e chutando a gol, acertando o gol,,,

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 03h00

Lembra? Uma bola, 11 jogadores de cada lado... O objetivo era um time botar a bola dentro do gol do outro time e evitar que o outro time botasse a bola dentro do seu. Parecia fácil, mas não era. Os times precisavam avançar trocando passes, driblando os jogadores adversários, que tentavam tirar a bola deles, chegando o mais perto possível do gol e chutando a gol, acertando o gol, festejando o gol, desaparecendo sob uma pilha de companheiros que também festejam o gol, agradecendo a Deus e fazendo uma dancinha ensaiada para comemorar o gol (não necessariamente nesta ordem) ou então, claro, errando o gol, chutando a bola para longe, ou acertando o gol, mas o goleiro pegando a bola com as mãos ou rechaçando a bola com as mãos já que ele podia, o desgraçado.

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Lembra como um jogo de futebol bem jogado era bonito? Nada se igualava à plasticidade de um jogo de futebol bem jogado. Mesmo um jogo de futebol mal jogado tinha sempre a redimi- lo um ou outro lance de graça desajeitada, como num balé de hipopótamos. E como no céu do anoitecer ou em qualquer outra manifestação artística, no futebol algumas estrelas também brilhavam mais do que outras, lembra? Vi jogar, modéstia à parte, algumas dessas fulgurações inesquecíveis. Dois pontos.

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Quando quero impressionar alguém, se não com minha cultura futebolística pelo menos com minha idade, conto que vi jogar o Domingos da Guia. Eu com 14 ou 15 anos, ele em fim de carreira, no Corinthians. Não tinha mais futebol, mas ainda tinha majestade. Quando quero passar por olheiro científico conto que estava no estádio quando o Santos veio jogar em Porto Alegre e, no segundo tempo, botou em campo um garoto que não podia ter mais do que 16 anos e, soube depois, se chamava Pepé ou Pelé ou coisa parecida. E sentenciei: “Esse guri vai longe”. Só metade da história é mentira. O Santos foi jogar em Porto Alegre, eu estava no estádio, o garoto entrou no segundo tempo, mas não tenho a menor lembrança da sua figura, da sua atuação ou da minha opinião a seu respeito.

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Meu ídolo era o Tesourinha, ponteiro direito do Internacional no tempo em que ainda existiam ponteiros direitos. Tesourinha chegou à seleção, e só não participou da final do mundial de 50 contra o Uruguai porque estava lesionado, se não teria vencido o jogo sozinho. Era tão bom que uma vez vi um juiz (inglês, Mr. Barrick, contratado para apitar no campeonato gaúcho porque nem Grêmio nem Internacional acreditavam na isenção de juízes locais) fazer uma coisa inédita: depois de uma jogada espetacular do Tesourinha, não se conteve e foi apertar sua mão.

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Era bonito o futebol. Será que ainda o veremos de novo, algum dia?

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