Lelé, o artista do pré-fabricado

Lelé é um daqueles mestres que não precisam estar sob os holofotes para construir um trabalho sólido e generoso. Pouco conhecido do grande público, o arquiteto que se tornou grande companheiro de percurso de Oscar Niemeyer foi um dos principais homenageados da 4.ª Bienal de Arquitetura, realizada no ano passado e representará o Brasil na próxima Bienal de Arquitetura de Veneza, a ser aberta em junho.Como todos os indicados para o Prêmio Multicultural 2000 Estadão Cultura, o maior mérito de Lelé não é uma obra específica, mas sim um pensamento que ultrapassa as fronteiras de sua área de atuação. Lelé - que tem esse apelido desde menino por causa de um jogador de futebol - defende uma visão generalista da arquitetura. Considerado um grande especialista na questão construtiva, Lelé diz que na verdade sempre foi mais ligado às artes. Aliás, Lelé diz que se tornou arquiteto por acaso, porque tinha mania de fazer caricaturas. Filho único e arrimo de família, ele tocava acordeão para ganhar a vida. Quando passou no vestibular, em 1951, nem sabia a diferença entre arquitetura e engenharia. Em 1957, com 25 anos de idade e quase recém-formado, embarcou para Brasília para construir a primeira superquadra, do Instituto dos Bancários, e se deparou com um sem número de desafios.A construção da capital é como um ponto inicial em sua história. Foi essa experiência que o levou à questão da industrialização na construção, considerada uma das características essenciais de seu trabalho. Para ganhar escala e velocidade, ele acabou tornando-se especialista em pré-fabricados e chegou a ir para o Leste Europeu no início da década de 60 para se especializar em técnicas industriais de construção. Atualmente ele continua gerindo uma grande oficina de projeto e de construção. Foi também a partir deste "trabalho" que ele conheceu seus companheiros de estrada Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Athos Bulcão, seu parceiro em quase todos os projetos. A relação entre Lelé e Bulcão é tanta que o arquiteto costuma dizer que seus prédios são uma moldura para o trabalho do artista. Autor de projetos importantes, como os hospitais da rede Sarah Kubitschek, do Centro Administrativo da Bahia e do terminal rodoviário de Salvador - cidade que adotou como casa -, Lelé parece gostar mais das obras de caráter quase anônimo, participando de empreitadas de caráter público, como a construção de passarelas por Salvador ou de seu trabalho na Fábrica de Escolas que produziu uma série de unidades escolares de baixo custo de construção nas favelas do Rio, do que da luxuosa residência que construiu para Nivaldo Borges. "Você só se sente realizado quando seu trabalho atinge a comunidade", afirma.Essa necessidade de enfatizar o caráter social da arquitetura acabou até modificando radicalmente o aspecto de seu trabalho. "A arquitetura de argamassa armada, por exemplo, tem uma cara mais pobre", explica ele. A técnica, no entanto, permitiu construir muito mais por um custo muito mais baixo. "Foi um preço que paguei com prazer", diz. No caso dos prédios hospitalares que projetou e que lhe renderam o título de maior especialista desse tipo de arquitetura no País (título que nega com veemência para reafirmar sua condição de generalista), é possível notar a utilização no teto de formas que lembram ondas do mar. Além do caráter estético, essa característica decorre também de exigências de climatização.Estudos realizados na Europa indicam que um hospital deveria ficar fechado seis meses por ano para evitar as infecções hospitalares, conta ele. A solução encontrada pelo arquiteto foi eliminar o ar condicionado e facilitar ao máximo a circulação e a troca de ar. Ao longo dos anos ele foi criando soluções para pequenos e grandes problemas hospitalares, chegando até a desenvolver mobiliário especializado. "Por que copiar um modelo europeu e americano sem nenhuma adaptação?", pergunta ele. Apesar de seu vínculo com a arquitetura social e de ter convivido intimamente com comunistas históricos como Niemeyer, Lelé diz que nunca foi um militante. "Não tenho vocação para atuar politicamente", diz ele, com certo ceticismo. "Não acho que a arquitetura possa resolver os problemas do mundo", diz. "Mas temos de aproveitar as oportunidades que surgem", acrescenta, dizendo-se muito preocupado com os rumos da arquitetura atual. "O mundo está passando por transições tão violentas e a arquitetura está tão à reboque que fico meio apreensivo", confessa. "Fala-se em prédio inteligente, mas ele não é inteligente, é superburro; a arquitetura é igual à de um prédio do princípio do século, ou pior", conclui.Lelé não é apenas arquiteto, mas um profundo conhecedor de sua área de atuação. Como professor, procurou mostrar a seus alunos não apenas a beleza da obra de um Mies van der Rohe, mas a poesia e a perfeição construtiva de uma oca do Xingu.

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