Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Leituras sabáticas: a obra na voz do escritor

Organizada pelo Sabático, série de vídeos estreia amanhã no Estadão.com com a paulistana Lygia Fagundes Telles

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2010 | 00h00

Numa noite quente de 1966, num quarto de hotel em Águas de São Pedro (SP), onde se hospedava com o segundo marido - o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes (1916- 1977) -, Lygia Fagundes Telles escreveu em sua máquina Remington o conto O Moço do Saxofone. Ao lado, Paulo Emílio anotava num caderno parágrafos de Três Mulheres de Três PPPs, seu único livro de ficção, que seria publicado apenas no ano de sua morte.

A história a escritora paulistana lembra no primeiro vídeo da série Leituras Sabáticas, que estreia amanhã no Estadão.com. Organizado pelo Sabático, o programa on-line, no qual escritores farão a leitura de contos, trechos de romances e outros textos de autoria própria, terá novos vídeos sempre no primeiro sábado de cada mês. Além disso, cada autor comentará as circunstâncias em que o texto foi escrito e como se deu o processo de criação.

Lygia, assim como todos os escritores que participarem do Leituras Sabáticas, foi quem escolheu o texto a ser lido. O conto integra o volume Antes do Baile Verde, considerado um dos mais importantes de sua carreira, publicado em 1970 e reeditado no primeiro semestre do ano passado pela Companhia das Letras - atualmente responsável pelas novas edições de toda a obra de Lygia Fagundes Telles.

Mas O Moço do Saxofone não demoraria tanto a ficar conhecido do público. No mesmo ano em que foi escrito, no dia 18 de junho, foi publicado com destaque no Suplemento Literário, que circulou de 1956 a 1974 no Estado e se tornou referência entre os cadernos do gênero no País. Pouco tempo depois daquela noite em Águas de São Pedro, durante um jantar regado a vinho, já na capital, Paulo Emílio comentaria com o amigo Décio de Almeida Prado (1917- 2000) sobre a beleza do conto em questão. Décio, então editor do Suplemento Literário, virou-se para Lygia, também presente, e disse que gostaria de publicá-lo.

Pensão. O protagonista de O Moço do Saxofone é um chofer de caminhão que "ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando" e que, em determinado momento da vida, vai parar numa pensão do tipo frege-mosca - lugar inspirado, segundo Lygia, numa pensão em que ela mesmo viveu durante a juventude.

No local, chamam a atenção do motorista a comida ruim, uns anões que se hospedam por lá e uma insistente música de saxofone, "triste como o diabo". O homem logo fica sabendo que o saxofonista é um pobre coitado que passa o dia enfurnado num quarto, ensaiando, enquanto a mulher o engana "até com o periquito". O resto da história Lygia narra no Leituras Sabáticas.

Nascida em 19 de abril de 1923, Lygia Fagundes Telles é imortal da Academia Brasileira de Letras desde 1985. Embora tenha começado a escrever e a publicar ficção muito cedo, quando ainda cursava Direito na USP, ela prefere considerar o romance Ciranda de Pedra, de 1954, como o ponto de partida de sua obra adulta. Desde abril do ano passado, a Companhia das Letras já reeditou 11 de seus títulos - acabam de chegar às livrarias Verão no Aquário e Disciplina do Amor.

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