Leituras instigantes e inovadoras

Como nasce a música, no momento em que o compositor está diante dos pentagramas ainda vazios? Por impulso ou gesto racional? A julgar pelo repertório do concerto da Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen anteontem na Sala São Paulo, a criação nasce primeiro por impulso, só depois entra o racional. Soa normal em Haydn, Mozart e Mendelssohn, mas pode assustar no cerebral Arnold Schoenberg. Haydn brinca no incrível allegro spirituoso inicial de sua Sinfonia nº 80 enfiando um convite à dança, com direito a "breaks", na escrita dita séria; Mozart escreveu em 1775 cinco concertos para violino no estilo galante só porque era "moda" - o terceiro que ouvimos em irretocável interpretação é um dos mais brilhantes do pacote. Em Mendelssohn, como atesta seu belo concerto, a escrita também fluía de modo natural.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2011 | 00h00

Surpreendentemente, encaixou-se muito bem, neste arco histórico, a versão de cordas do sexteto Noite Transfigurada, de Schoenberg. O poema de Richard Dehmel que o inspirou era ousado para 1899: um casal passeia sob a lua, tarde da noite; ela diz que está grávida, mas de outro homem; o parceiro assume a criança, abraça-a, beija-a e os dois "atravessam a noite vazia e clara". Pois ele diz que o escreveu por impulso, "sem saber o que fazia do ponto de vista teórico, simplesmente me guiando por meu ouvido". O violino de Christian Tetzlaff tem sonoridade ampla e calorosa; e sua musicalidade é única, seja comandando o grupo de 36 ótimos músicos, seja solando. Ouça outras duas obras-primas de Tetzlaff em CDs: o Concerto nº 1 de Szymanowski com Pierre Boulez e a Filarmônica de Viena (DG); e o Concerto de Kurt Weill, com Bremen (Virgin).

Foram marcantes as obras orquestrais de Haydn e Schoenberg - no primeiro, leveza e precisão; no segundo, pianíssimos de arrepiar, articulação e fraseado justos, dinâmica de amplo espectro. Feliz o público de Salzburgo, que os assistiu em 2009 numa integral Beethoven. Tivemos a amostra no extra de anteontem: a irresistível leitura do Allegro molto e vivace da mozartiana Sinfonia nº 1. Será que São Paulo não merece, ou melhor, precisa de uma orquestra com uma configuração dessas, capaz de empreender leituras instigantes e inovadoras tanto do barroco quanto do clássico como da música romântica e do século 20? É um nicho muito atraente e ainda não ocupado por nenhum grupo.

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