Leituras

Os necrológios do recém-falecido historiador francês Jacques Le Goff destacaram que ele mudou a nossa maneira de ver a Idade Média. Medievalista emérito, Le Goff descobriu no período muito mais significados do que se imaginava e destruiu alguns clichês sacramentados sobre a época. A Idade Média não teria sido apenas uma ponte entre o miasma sulfúrico da Idade das Trevas e a Renascença, mas uma era de transformações importantes, assim na Terra como no Céu. É do Le Goff a tese de que o Purgatório foi inventado para que quem praticasse a usura, que era pecado, não fosse direto para o Inferno, mas tivesse a oportunidade de se regenerar no caminho e escapar da punição, o que representou um grande impulso para o nascente sistema bancário. Assim o capitalismo, que mudaria o mundo, começou mudando a cosmogonia cristã.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2014 | 02h09

O que a gente estranha nessas reavaliações do passado é que a História se preste a tantas releituras. Imagina-se que o acontecido está acontecido e que seja impossível reinterpretar o que já se congelou como fato histórico. Na verdade, tudo é interpretação. O que acontece com o fato histórico é o mesmo que acontece com a lei, que não é uma para todos, mas para cada um de acordo com a sua leitura. Toda vez que, por exemplo, no Supremo há uma votação fragmentada, uma maioria derrotando uma minoria, isto significa que uma leitura da lei subjugou outra leitura. Quando a questão é de constitucionalidade, a estranheza é maior: como pode uma interpretação da Constituição ser diferente de outra se a Constituição é a mesma? Há dias, o ministro Joaquim Barbosa deu o único voto favorável ao julgamento do Azeredo e do mensalão tucano no Supremo - todos os outros ministros votaram contra. Azeredo será julgado pela justiça do seu Estado, se o crime pelo qual é acusado não prescrever antes. O voto do Barbosa foi exageradamente subjetivo, para evitar que acusassem o Supremo - como a Igreja mudando a configuração do Além - de adotar dois jogos de pesos e medidas, um para o PT e outro para os outros, ou sua leitura da lei foi a única correta?

O passado, já disse alguém, é uma terra estranha, cheia de surpresas para quem a visita. Reinterpretá-la é sempre uma aventura intelectual, como foi para Le Goff. A variedade de leituras das leis também pode ser positiva, quando não é assustadora. Todo o sistema de instâncias do judiciário existe para que o subjetivismo não domine e deforme os julgamentos. Mas que a gente estranha, estranha.

Papo vovô. Lucinda, nossa neta de 6 anos, pediu para eu me inspirar - a palavra é dela - e inventar uma história para a qual ela já tem o título: A Batata Assassina. Estou aceitando sugestões.

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