Leituras de férias

Meu trabalho é ler e escrever, mas minhas férias não foram muito diferentes - e isto não é uma queixa. Os livros têm essa vantagem: quando a temporada de cinema e música entra em recesso, continuam ali, literalmente ao alcance das mãos, e nos mais variados gêneros e temas.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

A Era da Empatia, de Frans de Waal (Companhia das Letras), por exemplo, é um relato de seu célebre e controverso trabalho com os bonobos, nos quais encontrou um comportamento de cooperação que contrasta com o dos chimpanzés, e a leitura prende por misturar ciência e psicologia, uma das tendências intelectuais mais fortes destes tempos. Ele diz que "os homens devem ser incluídos entre os primatas mais agressivos", mas também são dotados da capacidade de estabelecer vínculos sociais que põem limites a isso, graças à identificação afetiva com os outros, à empatia que faz parte da nossa estrutura cerebral, sobretudo do nosso dom linguístico, e não apenas por covardia ou calculismo. Onde eu encasqueto nesses livros é em afirmações como "as ideologias vão e vêm, mas a natureza humana permanece" e "tudo é uma questão de equilíbrio". Um professor de primeiro ano de filosofia diria: "Então defina "natureza humana" e "equilíbrio"".

A biografia "pocket" Churchill, por Paul Johnson (Nova Fronteira), também tem muito a dizer sobre o assunto. Johnson é um conservador e, claro, projeta isso em seu personagem, como quando o compara a Margaret Thatcher... Mas mostra como Churchill, de espírito liberal no sentido mais amplo, contrário à ideia de revoluções salvadoras, desde cedo captou o perigo que Hitler representava (o que até mentes perspicazes como a de H.L. Mencken, nos EUA, não captaram, talvez porque descrentes demais da democracia), e uniu seus conhecimentos de combate à eloquência de seus discursos. Johnson lembra que sem a campanha de bombardeios de Churchill os nazistas teriam vencido a guerra; não foram apenas o Exército russo e o dinheiro americano os responsáveis pela vitória. Churchill sabia que às vezes competir é cooperar.

Li também O Caso Dreyfus, de Louis Begley (Companhia das Letras), sofisticado novelista americano, mas o livro mal serve como introdução ao assunto. Sua tentativa de paralelo com Guantánamo fica longe do que, por exemplo, Marcel Ophüls fez em documentários como Memória de Justiça, que compara o nazismo à ação americana no Vietnã. O caso do tenente judeu dividiu a mentalidade europeia na antessala da 1.ª Guerra, mostrando um projeto de civilização falido; foi muito mais que um escândalo de direitos humanos.

O ocaso europeu, por sinal, produziu livros como os de Georges Bernanos (1888-1948), agora em relançamento pela editora É. Em Sob o Sol de Satã, com uma tradução que em si mesma já é uma atração, por Jorge de Lima, o que interessa não é a trama e nem mesmo a mensagem jansenista, da dificuldade da graça (mensagem tão oposta à de hoje, em que basta ter fé para tudo dar certo, a começar pela vida material), mas o estilo. O turbilhão existencial do padre Donissan, que quer ajudar Mouchette e termina angustiado como ela, é desdobrado em meditações únicas, como a do terço final sobre a trivialidade do mal (que mais tarde Hannah Arendt chamaria de "banalidade") e as vidas "mornas" e "obscuras" da maioria. É uma religião que beira o cinismo ao definir o ser humano como "criança grande cheia de vícios e de tédio". Curioso como certos crédulos não botam fé no instinto da empatia...

Religião também é o assunto de outro autor tido como conservador e elitista, Roger Scruton, em Coração Devotado à Morte (também da editora É), sobre "o sexo e o sagrado" na ópera Tristão e Isolda, de Wagner. Scruton tenta desvincular Wagner de qualquer sistema de crenças, mostrando não só suas particularidades, mas sobretudo seu efeito estético. Brilha mesmo quando analisa seu uso dos semitons para criar uma polifonia que nunca parece ter centro, vertiginosa, em ondas instáveis. Mas diz que na ópera, baseada em fontes medievais, o amor erótico tem caráter sagrado porque aposta na redenção pelo sacrifício; e que é por isso que o drama do casal nos comove. Não, a mim me comove por sua poderosa sensualidade, não por sua renúncia cristã. Como Johnson, Scruton se projeta na leitura do outro. Empatia não é ideologia.

Uma lágrima. Morreu no dia 11, aos 90 anos, o físico brasileiro Jayme Tiomno. Escandalosamente, a grande imprensa brasileira mal se limitou a dar uma nota ou não deu nada. Ele foi provavelmente o maior físico teórico do Brasil e, ao lado de César Lattes, Roberto Salmeron e José Leite Lopes, pertenceu à geração que atingiu patamar internacional na disciplina e praticamente fundou a física quântica no País. Colega de Feynman, Gell-Mann e Wigner, trabalhou com Wheeler e conheceu Einstein em Princeton, antes de voltar ao Brasil e lutar pelo ensino nacional, lembrando sempre que "gênio é trabalho".

Cito esses nomes para dar uma ideia do mundo onde viveu e foi respeitado, a tal ponto que Wheeler o indicou para o Nobel por sua teoria sobre a universalidade das interações fracas. Há quatro anos, fui ao Rio e escrevi um perfil de página inteira dele. Soube depois que não gostou muito da expressão "viu o Nobel passar" e da revelação de que ele chorou durante a entrevista, mas o jornalismo tem exigências. De qualquer modo, a indicação para o Nobel apenas representa o grau de excelência a que chegou numa época de gigantes. Um gigante ainda irreconhecido em seu país.

Por que não me ufano (1). Os balanços de fim de ano não embalaram muitas esperanças. O ex-presidente Lula se despediu com uma série de lambanças, para adotar termo de futebol ao seu gosto. Negou a extradição de Cesare Battisti, violando tratado com a Itália, onde ele foi condenado por quatro crimes. Li alegações de que o Brasil tem tradição nesse tipo de asilo político, mas não colam. Basta pensar se Battisti fosse cubano: alguém duvida de que seria mandado embora no primeiro avião? Por sinal, em matérias sobre a nova presidente, Dilma Rousseff, foi comum ler que ela lutou contra o regime militar em nome da democracia. Eu nunca soube que as guerrilhas de extrema esquerda queriam democracia. Lula ainda teve férias de graça a convite do Ministério da Defesa; seus filhos ganharam passaporte diplomático do Itamaraty; a inflação para a baixa renda passou de 7%, levando o Banco Central a aumentar os juros; e a ex-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, foi à posse de Dilma.

Os tucanos e aliados em São Paulo não ficaram atrás. Mais de uma vez escrevi aqui que Geraldo Alckmin empregou o pai na prefeitura de Pindamonhangaba e, mais tarde, já governador, continuou a defender o ato. Agora os jornais estão repletos de informações sobre um cunhado seu que é acusado de fraudar licitação de merendas das escolas públicas. Enquanto isso, o Rio Tietê, supostamente despoluído com dinheiro de bancos internacionais, ficou quatro anos sem desassoreamento e voltou a inundar a Marginal. Sobre a prefeitura de Gilberto Kassab, que quer tirar ainda mais dinheiro do cidadão por meio de multas (reduzindo a velocidade máxima em grandes avenidas a 60 km/h) e nunca mais mencionou estatísticas sobre a lei seca (lembram quantas vidas teriam sido poupadas no primeiro mês?), o mínimo que se mostrou foi que não cumpriu nem metade das metas em todas as áreas. Eta, Brasil...

Por que não me ufano (2). Depois da tragédia das chuvas na região serrana do Rio, dificilmente se viu algo alentador na ação pública, oficial, apesar da visita de Dilma Rousseff ao local, contrariando - ainda bem - os hábitos alienados do antecessor. Nove em cada dez pessoas entrevistadas falavam em Deus, lamentando o que tirou e esperando o que dará, jamais reclamando - nem dEle nem das autoridades. Mas os especialistas, como alguns geotécnicos que se cansaram de avisar aos políticos sobre o desastre iminente, deixaram claro para quem quiser ouvir que a prevenção teria custado muito menos verbas e mortes. E isso não há solidariedade que compense.

Não se viu sistema de alerta nem plano de contingência. A ocupação de áreas de risco não é reprimida e nem sequer monitorada, afogada no mito de que as forças superiores privilegiaram o Brasil com a inexistência de intempéries graves. Faltou coordenação entre as esferas e os poderes. As políticas de habitação e saneamento são tão fracas que foram varridas com o semitsunami serrano. O solo urbano não tem permeabilidade, as galerias de escoamento não merecem investimento porque não dão cartaz. São problemas que se repetem Brasil adentro, sobretudo nas periferias favelizadas, onde o poder público só aparece para dar mesada e levar voto, não para obras e planejamentos a longos prazos. As águas de janeiro desabaram em cheio na serra fluminense, mas enlamearam o País inteiro.

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