Leituras combinadas

Building Stories, de Chris Ware, é eleito livro do ano e assombra mercado editorial de HQ nos EUA

RAMON VITRAL, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h09

Para esgotar todas as possibilidades de leitura de Building Stories, a nova história em quadrinhos do autor norte-americano Chris Ware, é necessário ler a obra oitenta e sete bilhões cento e setenta e oito milhões duzentas e noventa e uma mil e duzentas vezes.

Lançada pela Pantheon Books, a HQ levou mais de dez anos para ser produzida e foi publicada dentro de uma caixa que contém 14 publicações em diferentes formatos e tipos de impressão. Sem uma ordem de leitura determinada pelo autor, fica ao gosto do leitor a sequência de impressões pela qual ele pretende seguir até o final. Daí as bilhões de combinações possíveis.

Building Stories foi o primeiro colocado na edição de melhores livros do ano da revista Publishers Weekly, única obra em formato de quadrinho da lista principal. À frente, por exemplo, do mais recente vencedor do prêmio Man Booker (Bring Up the Bodies, de Hilary Mantel).

O trabalho de Ware narra a vida uma cidadã anônima de Chicago, o cotidiano do prédio em que ela vive e as leituras de suas memórias por parte da população local no futuro. Em resenha sobre a HQ publicada em junho, a revista já havia falado sobre a grandeza da obra: "O espetacular esplendor visual faz dessa uma das grandes graphic novels do ano".

O tamanho de Building Stories impressiona. A caixa tem 42,6 centímetros de altura por 29,8 de largura. Enquanto algumas das 14 impressões dobradas têm o mesmo tamanho da caixa, chegando a ser maior que uma folha de jornal, outras têm o formato de tiras, com menos de oito centímetros de altura. Sempre com arte de precisão geométrica e detalhista, cores vívidas e tramas melancólicas.

Candidata potencial aos principais prêmios da indústria norte-americana de quadrinhos referentes a 2012, Building Stories deve sacramentar Ware como um dos artistas mais respeitados e premiados do gênero. Com sua série independente Acme Novelty Library e coletâneas de histórias tiradas dessa publicação, como Jimmy Corrigan - O Menino Mais Esperto do Mundo (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), Ware conquistou nove prêmio Eisner entre 1995 e 2008.

Em entrevista à publicação especializada em quadrinhos The Comics Journal, Ware falou sobre seus objetivos durante a produção de Building Stories. "Queria retratar como histórias e lembranças estão disponíveis em diferentes formas em nossa memória, elas não possuem uma continuidade", explicou. "E claro, também queria que o livro fosse divertido."

Em um evento para lançamento da HQ, Ware revelou outra de suas pretensões com o livro: "Queria que não tivesse começo ou fim e que capturasse a sensação que temos quando nos perdemos em pensamentos".

Segundo Ware, uma de suas inspirações para o formato de Building Stories foi uma obra de arte do artista francês Marcel Duchamp. A partir de 1936, Duchamp criou uma série de obras de arte chamadas La Boîte-en-valise: os trabalhos consistem em 24 malas que reúnem 69 reproduções de obras de Duchamp, como um museu portátil. "É um evento para o mundo dos quadrinhos. O formato pouco usual do livro de Ware redefine mais uma vez a o que pode ser uma graphic novel", publicou a revista The New Yorker.

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