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Leitores & vedores

Nossa revista, a ‘Playboy’, tinha leitores. E, muito mais numerosos, “vedores”

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2020 | 03h00

Já não me lembro se a ideia foi minha ou de algum colega, quem sabe do Ricardo Setti, amigo vitalício sob cujo comando eu trabalhava na finada Playboy. Lembra? A mais manuseada das revistas brasileiras, aquela das reportagens, artigos, entrevistas e outros álibis masculinos. 

Um concurso de contos, pensei eu, pensou alguém. Eróticos, evidentemente. Embora em mim uma suspeita fosse virando certeza: o leitor não o é. Tanto tempo depois, ainda não me convenci do contrário. No caso da Playboy, ele via muito e lia pouco, ou nem isso. Na pré-história dos vídeos libidinosos na internet – estávamos na última década do século passado –, a gula de seu olhar se saciava com as imagens impressas, quase nada sobrando para as letrinhas. Em nome da fidelidade aos fatos, cheguei a sugerir que ao usuário da Playboy se aplicasse o rótulo “vedor”.

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Mas quem sabe lhe caísse bem, entre dois repastos visuais, uma leiturinha apimentada? Algo que jamais pousara em minha mesa de redator-chefe. O máximo que vi chegar ali, conforme já contei, foram copiosas laudas datilografadas em espaço mínimo – em mais de um sentido, a mais compacta versão do Kama Sutra, tão crua quanto inexequível. Obra, para meu pasmo e constrangimento, assinada com pseudônimo anglo-saxão, mas escrita (lá estava o nome do verso do envelope) por uma senhora com jeito de beata que morava no meu condomínio.

Mas voltemos ao concurso de contos. Foram dois, o primeiro deles vencido por um conhecido publicitário, por decisão unânime de um júri de primeira: Lygia Fagundes Telles, Ivan Angelo e José Castello. O sucesso da promoção nos animou a reprisá-la. Na comissão julgadora, Nélida Piñon em lugar de Lygia. Nem por isso repetiu-se o êxito do certame anterior. Não por falta de concorrentes, outra vez numerosíssimos. 

Vamos ao ponto: foi um fracasso – por culpa deste cronista crônico, como adiante se verá.

A reunião final da comissão julgadora aconteceu num hotel. A Nélida, o Ivan e o Castello se fecharam em confabulações que pude acompanhar, jornalisticamente excitado, no canto oposto do salão. Tendo lido boa parte dos textos, estava certo de que o concurso seria ainda mais bem sucedido que o primeiro. 

Chegou por fim o momento em que os jurados me convocaram para anunciar o vencedor. E então, naquele dia de céu limpíssimo, caí das nuvens: o escolhido era muito, muito maior do que seria razoável. Para acomodar a prosa premiada, seria necessário sacrificar algumas das moças pelas quais nosso “vedor” tinha feito assinatura ou corrido à banca de revistas. Ao redigir o regulamento, eu me esquecera de fixar tamanho máximo para os contos. Mancada indesculpável – e logo no universo da Playboy, no qual o quesito dimensões sempre foi tão relevante. 

Nem pensar, comuniquei aos jurados, desculpando-me por haver ocupado seu tempo e seus neurônios com um escrito que literalmente não teria cabimento em nossas páginas. Com a ênfase e a veemência que a caracterizam, a querida Nélida fincou pé: como não premiar um conto tão superior aos outros finalistas? Impasse. Aflito, liguei para o Ricardo Setti e lhe dei a má notícia – que, como se verá, ainda foi pequena diante de outra a caminho. 

Foi um custo convencer a Nélida a esquecer o catatau lascivo e a ciscar coisa menor na papelada. Voltei para o meu canto e outra vez mergulhei na espera, que não foi pequena. Há males que vêm para o mal, maldizia eu, certo, àquela altura, de que além de tudo perderia um voo cujo horário parecia aproximar-se em velocidade supersônica.

E então veio de lá o chamado para conhecer a nova decisão do júri. Porta-voz informal do trio, Nélida Piñon voltou a lamentar a não premiação de seu caudaloso favorito, e me passou às mãos umas poucas folhas de papel. Tamanho bom, respirei aliviado – para gelar de novo, e bem antes do ponto final. 

Pedi licença e fui ao telefone, comunicar ao chefe que o concurso de contos de Playboy tinha como vencedor uma história com temática não exatamente gay, porém muito próxima disso, protagonizada por um rapaz cuja identidade sexual não era suficientemente nítida. Se no caso do tamanho ainda coubera choro, agora não havia alternativa senão publicar, conforme nos comprometíamos no maldito regulamento. 

Quando a revista foi para as bancas, fiquei no aguardo de uma tempestade – que afinal não veio, numa comprovação adicional de que nossa revista, muito mais do que leitores, tinha vedores.

Ah, sim: não perdi o voo. E, claro, nunca mais pensamos em concurso de contos eróticos. 

A volta do Suplemento. Lamentei aqui, faz poucas semanas, que o ótimo Suplemento Literário de Minas Gerais, criado em 1966 pelo escritor Murilo Rubião, estivesse sumido havia mais de um ano. A boa notícia é que a Secretaria da Cultura de Minas decidiu ressuscitá-lo, por ora apenas na versão digital. No bem-vindo retorno, uma edição dedicada ao poeta Adão Ventura (1939-2004) está disponível no endereço http://bibliotecapublica.mg.gov.br/index.php/pt-br/suplemento-litelario/edicoes-suplemento-literarios/edicoes-especiais-1/137--114/file

*É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

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