Leitor que nos odeia tanto

O ódio procriou e 'enratinhou' nas conexões da rede, como ratos percorrendo esgoto

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2017 | 02h00

Estou nas redes sociais desde o seu Big Bang. Há muito, entrei em contato com o ódio despejado por ativistas de teclado desconhecidos.

Encontrava-se tal ódio no trânsito ou em estradas, em que motoristas anônimos em seus veículos, como que numa armadura de aço laminado com muitos cavalos de potência, alguns com insulfilm, xingam, buzinam e se agridem sem pudor ou temer a retaliação.

Então, a internet é como o trânsito: você pode provocar, descontar a ira em alguém, e acelerar pelas vias óticas e cabos para a segurança de seu esconderijo.

No início, eu não sabia que tinha tantos que me odiavam tanto. Agrediam minha deficiência (“bateu a cabeça e ficou idiota”), minhas convicções (“comunista defensor da Venezuela, vai pra Cuba!”), meus valores.

O ódio procriou e “enratinhou” nas conexões da rede, como ratos percorrendo esgotos, e emergiu. Saiu dos bueiros. Foi para as ruas, aeroportos, reuniões de família, restaurantes, calçadas do Leblon, bares.

Dizia-se no passado que, se o brasileiro falasse de política como fala de futebol, seríamos um País melhor. Hoje, pode passar um decisivo clássico pela TV, e tem gente que prefere exercitar numa rede social ou no balcão o racha da política nacional.

Por vocação democrática, não conseguia fugir do debate, muito mesmo bloquear um leitor irado. Sei que “ignore” é o comando aconselhável. Sei bem lidar com o ódio que opiniões divergentes despertam.

Cada leitor tem sua via para despejar um ódio que por vezes demonstra preocupação clínica. Os comentários no site do Estadão sobre as minhas colunas para o Caderno 2 são peculiares e revelam uma hipótese pior do que o próprio ódio em si: se antes era uma porcentagem minoritária dos comentários com críticas pessoais, agora é maioria; o nível do ódio aumentou, em quantidade e verbo.

Imagino postagens do passado, se o blog ou similar fosse ativo desde a Grécia Antiga. “Meu caro Sófocles, sua hora vai chegar, Roma um dia baterá à sua porta. Onde já se viu escrever uma tragédia em que mãe e filho se relacionam?!”

“Meu caro Shakespeare, você escreve mal, tem ideias rasas. Acusar a Dinamarca de ser um reino podre revela o elisabetano incoerente em você, que deve receber dinheiro do nosso reino para suas peças infames.”

“Caro Beethoven, sinfonia com coro? Nunca ouvi tamanha barulheira. Já sei, como você é surdo, para você sua nova obra é inaudível. Deu saudades de Mozart.”

“Bob Marley, por que você e toda a sua laia de vagabundos do reggae não entram num barco e zarpam para Cuba, aqui ao lado? Lá poderão fumar sua maconha e discutir suas ideias socializantes.”

Sobre a minha coluna Chama o Pinel, em que abordo o ódio que se espalhou, o leitor José Arinos escreveu: “O sr. MRP mostra sua militância de extrema esquerda de uma maneira de certa forma ingênua”. 

Pedro Max torce para que “Bolsanaro meta a chincha nessa esquerda prebendeira”. Quanto a mim, capricha: “O classe média aí da fita nunca fazia uma crítica nos tempos da brilhantina lulopetista. Esse cara é um coitado”. Dirceu Bertin entra no tom: “Mimimi de peteba da seita do Lullarapio que, em 14 anos de explícita roubalheira, nunca viu nada de anormal”.

Na coluna seguinte, O Olhar Deturpado, sobre se nudez de artista pode receber um olhar deturpado, Nietzsche da Silva escreveu: “É impressionante sua capacidade de dizer tanta bobagem num só texto, onde se pretende falar de cultura, do presente e do passado”.

Márcio Porto levou para o pessoal: “Que artigo mais fraco... O tempo está lhe fazendo mal, meu caro... Está fazendo parte dos ‘artistas chatos e previsíveis’. Por mais artigos com fundamentos e menos blá-blá-blá. Esse jornal já teve um elenco melhor....”

A agressão de um incentiva outros. Francisco Scattaregi: “Você tem cérebro de minhoca... Espero que não tenha que ler mais essa baboseira de um cara minimamente inteligente como você”.

Dirceu Bertin viaja: “E o PT, partido do colunista, roubando a torto e direita, mas isso não é pobrema para ele, o pobrema é não deixar peladões com crianças de 4 anos e o Cae poder transar com meninas de 13”.

Silas Costa chuta o pau da barraca: “Pare com a vitimização e as mentiras, prezado blogueiro. Primeiro: ninguém quer censurar arte, mesmo a ‘porno-soft’ que v.sa. adora, apenas não quer crianças em exposições adequadas a maiores de idade, tudo conforme a lei e o bom senso”.

O livro de 2004, Como Curar um Fanático (Amós Oz), é sobre terrorismo. Relido, hoje, reflete também sobre que ocorre na internet e vida real.

“A síndrome de nossa época é a luta universal entre fanáticos e o resto de nós. O crescimento do fanatismo pode ter relação com o fato de que, quanto mais complexas as questões se tornam, mais as pessoas anseiam por respostas simples. O fanatismo acredita que, se alguma coisa for ruim, ela deve ser extinta, às vezes junto com seus vizinhos.”

Amós diz que a arte abre um terceiro olho. Nos faz ver coisas antigas de um modo novo. Uma pessoa curiosa, interessada, é uma pessoa melhor. Não é coincidência que a ira dos fanáticos e fundamentalismo se volta contra colunistas e artistas. 

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