Leis e normas

A tal lei que proíbe avacalhar candidatos em época de eleição e que provocou uma manifestação de humoristas no domingo passado no Rio existe desde 1997. Quer dizer, é um exemplo daquelas leis brasileiras que, como vacina ou mudinha, pegam ou não pegam. Esta não pegou, tanto que não me lembro de vê-la discutida assim em outras eleições. Isto não significa que ela não deva ser execrada e o seu autor sofrer um ataque de cócegas sempre que aparecer em público, para aprender. Significa que a punição por avacalhar candidatos não deve preocupar muito, nem humoristas nem ninguém. Inclusive porque será difícil caracterizar o crime.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

- Pô, cara. A gozação que fizeram com você na TV, ontem, passou dos limites. Apareceu um imitador com a sua cara, dizendo uma porção de bobagens... Eu, se fosse você, processava.

- Não era imitação, era eu!

- Desculpe.

Uma questão maior é a dos limites da opinião, avacalhadora ou não, de quem tem o privilégio de um espaço na imprensa. Limites que independem de a lei pegar ou não pegar porque fazem parte dos nossas normas, e das nossas hipocrisias, jornalísticas. Na Europa e nos Estados Unidos é comum colunistas abrirem o seu voto e os próprios jornais declararem suas preferenciais eleitorais. No começo de cada campanha presidencial americana, por exemplo, o New York Times anuncia para quem vai torcer - o que não é um anúncio de que vai destorcer a favor do escolhido. Aqui, a norma é da objetividade, mesmo fingida. Sempre achei estranho que um cronista de jornal, que é pago para ser subjetivo ao máximo, se veja obrigado a sonegar seu gosto político, que deveria ser tão naturalmente exposto quanto seu gosto em filmes, livros, mulheres e pastéis. Já outros sustentam que o voto aberto do cronista é um abuso do poder da imprensa. É uma discussão antiga, essa com a dona norma.

"Avacalhar", se não me falha o etimológico, vem de vaca mesmo. Reduzir alguém a vaca - pobre vaca, esse símbolo de resignação fatalista, sem falha de caráter conhecida - é desmoralizá-lo. O mais triste é que não funciona. Historicamente, nem os mais avacalhados dos nossos políticos sofreram, politicamente, com a avacalhação. Temos uma cultura política à prova do ridículo. O que, claro, só torna a tal lei ainda mais ridícula.

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