Leilões em NY oferecem o melhor da arte brasileira

A Christie´s e a Sotheby´s de Nova York põem à venda, de hoje até quarta-feira, 20 obras de brasileiros como Di Cavalcanti, Hélio Oiticica, Vik Muniz, Mira Schendel e Jac Leirner, que fazem parte dos mais de 300 lotes oferecidos pelas duas casas em seus leilões de arte latino-americana. Os leiloeiros esperam alcançar resultados semelhantes aos obtidos com as vendas de arte impressionista, do pós-guerra e contemporânea já realizadas nessa temporada, que tem se mostrado melhor do que se previa após os ataques terroristas e a recessão."Nosso catálogo foi fechado no fim de setembro e até a peça mais cara oferecida pela casa entrou depois dos ataques", conta Kirsten Hammer, diretora do departamento de arte latino-americana da Sotheby´s. "Isso é um sinal que nem o terrorismo nem a situação econômica colocaram compradores e colecionadores em pânico." Antes do início da série de leilões este mês, analistas previam possibilidade de desastre comparável ao que ocorreu durante a Guerra do Golfo, quando o mercado de arte ficou praticamente parado. Para estimular as vendas, em muitos casos os leiloeiros colocaram as estimativas de preço das obras no nível mais baixo permitido pelos colecionadores que pretendem vendê-las. Mais caras - O valor mais alto entre os lotes de arte latino-americana em leilão esta semana é do quadro Inscape (Psychological Morphology nº 104), pintado em 1939 por Matta, o surrealista chileno. À venda na Sotheby´s, espera-se que alcance entre US$ 800 mil e US$ 1 milhão de dólares. Inscape é uma das primeiras pinturas a óleo de Matta, considerada um marco para a direção que o artista tomaria. Nessa tela ele experimenta formas de delinear objetos e reflete seu desejo de também dar formas ao que não poderia ser percebido senão numa visão interior, como define o título. Na Christie´s, a peça mais cara é Três Destinos, um tríptico pintado em 1956 pela mexicana Remédios Varo (1900-1963), que pertence à mesma coleção particular desde que foi concluído pela artista. A casa calcula para o quadro preço entre US$ 500 mil e US$ 700 mil. Nessa composição, encontram-se referências ao tempo, à ciência e ao esoterismo, temas favoritos de Remédios. Ela coloca na cena três pessoas, cada uma numa torre e ocupada com uma atividade diferente. Para mostrar sua crença em forças invisíveis que interconectam todos os seres vivos, Remédios une os personagens por raios de luz emitidos por uma estrela. Entre as obras de artistas brasileiros, telas de Di Cavalcanti (1897-1976) são as que têm maior cotação. A Sotheby´s tem duas delas e a Christie´s, uma. "Di Cavalcanti está sempre em demanda no mercado e, por ter sido um artista prolífico e de grande qualidade, há sempre bons trabalhos dele à venda", diz Kirsten Hammer. Na Sotheby´s, onde há obras também de Antônio Henrique Amaral, Saint Clair Cemin, Manabu Mabe (1924-1997), Beatriz Milhazes e Daniel Senise, estão sendo oferecidas as telas de Di Cavalcanti Paisagem do Porto, de 1959, com estimativa entre US$ 80 mil e US$ 100 mil, e Nu, de 1955, para o qual se espera preço entre US$ 200 mil e US$ 250 mil. O Di Cavalcanti que está na Christie´s é Crianças, pintado por volta de 1955. A pintura está voltando à mesma casa de leilões onde foi adquirida, dez anos atrás, por um colecionador de Jerusalém, que agora espera vendê-la por algo entre US$ 40 mil e US$ 60 mil. Destaques - Na Christie´s, a representatividade brasileira é maior, com 13 lotes de artistas nacionais. Além do quadro de Di, estão sendo leiloados trabalhos de Sérgio Camargo (1930-1990), Saint Clair Cemin, Lygia Clark (1920-1988), Antônio Dias, Rubens Gerchman, Noêmia Guerra, Nelson e Jac Leirner, Manabu Mabe, Vik Muniz, Hélio Oiticica (1937-1980) e Mira Schendel. Rodman Primack, especialista em arte latino-americana da Christie´s, aponta como destaque entre essas obras um grande tríptico sem título que Sérgio Camargo criou por encomenda do Banco do Brasil. Composto por elementos cilíndricos de madeira e todo branco, o tríptico foi instalado em 1968 na agência do banco na 5.ª Avenida, em Nova York, e ficou ali até poucos meses atrás, quando a agência foi transferida para um conjunto menor de salas no Rockefeller Center. Cada um dos três painéis mede 2,74 metros quadrados. "Nunca houve uma peça de Camargo deste tamanho no mercado", diz Primack. Sem querer arriscar na venda do tríptico, a Christie´s preferiu dar-lhe uma estimativa de preço "conservadora", segundo o representante da casa: entre US$ 70 mil e US$ 90 mil. Primeira a dispor um trabalho de Hélio Oiticica num leilão internacional, há apenas dois anos, a Christie´s está oferecendo nesta temporada Parangolé de Aqua, uma das peças conceituais que o artista produziu em meados dos anos 60 para que o observador as vestisse. A expectativa é alcançar entre US$ 60 mil e US$ 80 mil por ele. "Procuramos trazer obras que não sejam só comerciais, mas que têm importância histórica como as de Oiticica", diz Primack. "Um leilão de arte também dá oportunidade de educar os compradores."

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