Leilão de obras de Aleijadinho levanta polêmica

O anúncio do leilão de obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho, que pertencem à coleção do médico mineiro João Bosco Vianna Gonçalves, acendeu entre técnicos e pesquisadores um debate sobre a veracidade da autoria das esculturas. A venda de peças sacras atribuídas ao artista barroco está prevista para ocorrer entre terça-feira e sábado, na Galeria Leone Leilões de Arte, no Rio. Segundo o restaurador da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Minas Gerais, Antônio Fernando do Santos, durante a exposição que antecede o leilão, técnicos do órgão farão uma vistoria nas peças. Com base nas fotos publicadas nos jornais, o restaurador não acredita que as imagens sejam de Aleijadinho."É uma irresponsabilidade muito grande se organizar um leilão desse sem que se faça um laudo comprovando a autoria das peças", criticou Antônio Fernando, um dos autores do polêmico livro O Aleijadinho e Sua Oficina, cuja comercialização só foi liberada recentemente pela Justiça. No livro - escrito em parceria com Miriam Ribeiro de Oliveira e Olinto Rodrigues dos Santos Filho -, os autores, além dos "trabalhos de Aleijadinho", propõem outras duas classificações: "trabalhos de Aleijadinho e sua oficina" e "trabalhos da oficina do artista". A obra descredencia diversas imagens que fazem parte de museus de todo o País e coleções famosas.Documentação - A restauradora Beatriz Coelho, que preside o Centro de Estudos da Imaginária Brasileira (Ceib), ressalta que apenas o conjunto do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, formado pelos 12 profetas e outras 64 esculturas, e duas imagens - São Simão Stock e São João da Cruz - pertencentes ao acervo da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Sabará, possuem documentação que comprovam a autoria de Aleijadinho e sua equipe. As peças, principalmente as de Sabará, servem de base para a autenticação dos pesquisadores. "Por uma análise comparativa bem feita, pode-se chegar, com muita correção, a uma atribuição", diz Beatriz. Ela também desconfia das imagens veiculadas na imprensa, que fazem parte do conjunto que será levado a leilão. "Os anjos, por exemplo, não possuem as características anatômicas dos anjos de Aleijadinho." Mais cauteloso, Olinto Rodrigues lembra que é "muito difícil" avaliar as peças "com base em fotografias de jornal". O pesquisador, porém, acha estranho o fato de, segundo ele, as imagens divulgadas não constarem de nenhuma publicação referente ao artista barroco.Hoje com 87 anos, o dono do lote, embora confirme que não possui documentação que comprove a autoria das peças, diz ter certeza de que são obras legítimas de Aleijadinho. Ele diz que iniciou a coleção ainda adolescente e, desde então, passou a estudar o assunto. O médico também admite que nunca consultou um expert sobre as peças. O proprietário da Galeria Leone, Antônio Leone, reconhece que não pode garantir a autoria das peças. "A minha documentação é o senhor João Bosco, que é a maior autoridade sacra do Brasil." Ele coloca em dúvida a capacidade dos técnicos em restauração e estudiosos, e diz que "há muito pouco conhecimento" nessa área no País.Liminar - O anúncio do leilão no Rio também mobilizou moradores de Santa Luzia, na região metropolitana da capital mineira. Eles conseguiram, na quarta-feira, uma liminar que impede que três anjos barrocos sejam levados a leilão. A ação civil pública foi impetrada depois que moradores identificaram, por fotos publicadas em jornais, uma das imagens como parte do conjunto que compõe o santuário da matriz da cidade. João Bosco admitiu que há mais de 50 anos comprou três imagens de uma pessoa que se identificou como zeladora da igreja. A decisão do juiz determina que as peças sejam retiradas do leilão, ficando sob "custódia provisória" do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). Na sentença, porém, ele não descreve nem identifica quais seriam os anjos da coleção de João Bosco. O proprietário da Galeria Leone prometeu recorrer da decisão. A notícia serviu para criar ainda mais desconfiança em relação à autoria das peças. "O Aleijadinho nunca passou por Santa Luzia", garante Antônio Fernando.

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