Leiam

Desde os anos 1980, nosso ofício virou missão. Criar o novo leitor do novo Brasil, terra com um dos piores índices de leitura, na rampa de saída de décadas de silêncio e debates reprimidos. Outdoors incentivavam a leitura. No Pacaembu, usavam Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2016 | 02h00

Até hoje, saímos em caravanas literárias, vamos a escolas, faculdades, bibliotecas, feiras de livros, festivais, nos reunimos com vendedores, livreiros e distribuidores. Não somos apenas escritores boêmios, poetas louco, mas militantes de um Brasil melhor, culto, bem informado, democrático, livre!

A batalha foi perdida. Lê-se menos no Brasil. Livrarias de bairro, não mais. Grandes redes vendem também canecas, camisetas, bichinhos de pelúcia, revistas, cafés e tortas. Noite de autógrafos, agora são eventos, amigos escritores célebres ajudam amigos célebres e iniciantes, para atrair público.

Pedro Hertz, da Livraria Cultura, que, de uma provinciana loja familiar, deu numa rede nacional, livreiro realista, fez o prognóstico à sombra da nova era da tecnologia da informação: não é o livro que pode acabar, mas o leitor que está sumindo.

Os últimos acontecimentos, as aberrações ditas em rede sociais, a vergonha alheia no púlpito dos poderes, o contexto nebuloso na política, a baixa cultura e educação, provam que o desconhecimento de História, a falta de leitura, traz um dano que prejudica o pouco que resta de Projeto de Nação.

Depois de anos nos Estados Unidos, uma amiga com três filhos voltou ao Brasil e ficou chocada com a falta de incentivo à leitura na escola de elite em que os matriculou. Lá fora, liam de tudo, debatiam em aula, declamavam. Nos cadernos, o aviso aos pais: gastar 30 minutos com leitura. Aqui, ao reclamar, ouviu o equívoco didático sem tamanho. Não querem que os alunos encarem o livro como obrigação, mas com prazer.

Beleza, não obrigam, eles não leem. Poderiam também não os obrigar à Química Orgânica, Biologia, Gramática, Trigonometria, façam eles terem uma relação de prazer com o conhecimento. Ensinem apenas o que lhes dá prazer. Criem uma geração hedonista e manipulável.

Li, porque me obrigaram. Se não me obrigassem, eu jogaria botão o dia todo, e pingue-pongue às noites. Fui forçado a ler Dostoievski, Kafka, Camus, Sarte, Tolstoi, Marx Webber e Dürrenmatt, aos 16 anos. Minha média era quatro livros por mês. Minha escola era um oásis, e sou grato a ela. Existem outros. Sobrevivem.

O Colégio Equipe é o de gosto mais eclético. Já no primeiro ano do ensino médio, dá Convite à Filosofia (Marilena Chauí), O Senhor das Moscas (William Golding), Vidas Secas (Graciliano), As Bacantes (Sófocles), Eumênides (Ésquilo), entre outros. Em inglês, Frankenstein (Mary Shelley) e Of Mice and Men (John Steinbeck).

Para a segunda série, vão de A Metafísica (Descartes), Dos Canibais (Montaigne), Farsa de Inês Pereira (Gil Vicente) a Michael Kohlhaas (Heinrich von Kleist). Por fim, claro, Brás Cubas (Machado). O professor de inglês surpreende: Down Second Avenue (Es’kia Mphahlele), Do Androids Dream of Electric Sheep? (Philip Dick), Siddhartha (Hermann Hesse), 1984 (Orwell) e o sensacional e legível livro de contos Dubliners (Joyce), encomendado por seu editor, para o experimentalista irlandês poder ser lido por um público mais amplo.

A terceira série passa por Serafim Ponte Grande (Oswald) e livros voltados aos vestibulares da USP e Unicamp.

No Miguel de Cervantes, leem no ensino médio, em espanhol, Lazarillo de Tormes, La Celestina (Fernando de Rojas), Dom Quixote, Lorca, García Márquez, Vargas Llosa, Cortázar, Borges e Neruda, além da lista de autores brasileiros para os vestibulares. Marcelino Freire e Marçal Aquino já estiveram por lá. Neste ano, debatem o Brasil com Dois Irmãos e Órfãos de Eldorado (Milton Hatoum), e dois livros meus, Feliz Ano Velho e Ainda Estou Aqui.

No primeiro ano da Escola Vera Cruz, um livro do meu ex-professor Luiz Roncari é indicado, Dos Primeiros Cronistas aos Últimos Românticos. Tem literatura de cordel, Augusto Matraga (Guimarães), Ensaio Sobre a Lucidez (Saramago), Comandante Hussi (Jorge Araújo), Ai, Que Preguiça (Rodolfo Guttilla)

No segundo ano, 1889 (o melhor Laurentino Gomes), e Boris Fausto. Os livros listados para o vestibular “serão solicitados ao longo do ano”. Para o terceiro ano, entram A Era dos Extremos (Hobsbawm), Macunaíma, Sagarana, Laços de Família e A Hora da Estrela (Clarice), Vidas Secas (Graciliano), Órfãos de Eldorado, Capitães de Areia (Jorge Amado), Sentimento do Mundo e Terra Sonâmbula (Mia Couto).

O Santa Cruz (onde fiz o colegial) vai de Édipo Rei (Sófocles), Centauro no Jardim (Moacyr Scliar), Aleph (Borges), Macbeth (Shakespeare), Cândido (Voltaire), Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë), Aquele Que Diz Sim e Aquele Que Diz Não (Brecht), Entre Quatro Paredes (Sartre), Sinfonia Pastoral (Gide), Carta ao Pai (Kafka), O Estrangeiro (Camus), Memórias do Subsolo (Dostoievski). No 3.º ano, partem para os livros dos vestibulares. Incluem Maus (Art Spiegelman) e A Revolta da Vacina (Sevcenko).

As escolas se veem obrigadas a seguir a lista do Vestibular 2017 da Fuvest, apenas nove obras: Iracema (José de Alencar), Brás Cubas, O Cortiço (Aluísio Azevedo), A Cidade e as Serras (Eça de Queirós), Capitães da Areia, Vidas Secas, Claro Enigma (Drummond), Sagarana e Mayombe (Pepetela).

O Vestibular Unicamp 2017 inclui teatro, poesia e contos: Sonetos 1 (Camões), Poemas Negros (Jorge de Lima), Laços de Família (Clarice), Matraga, Negrinha (Monteiro Lobato), Lisbela e o Prisioneiro (Osman Lins), Coração, Cabeça e Estômago (Camilo Castelo Branco), Caminhos Cruzados (Erico Verissimo), Til (José de Alencar), O Cortiço, Brás Cubas e Terra Sonâmbula (Mia Couto).

Além de serem livros escritos em português (ficam de fora Shakespeare, Flaubert, Dostoievski, Proust, Virginia Woolf, Hemingway, Rimbaud, Melville, todos muito bem traduzidos por autores brasileiros), não há nada sobre macropolítica, ditadura, anos 1960, 70, 80, 90, passado recente.

E ficam de fora Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado, Darcy Ribeiro, Antonio Candido, Roberto Schwarz, Lilia Moritz Schwarcz, Viveiros de Castro, Sevcenko, Safatle, ou o jornalista Elio Gaspari. Dá pra acreditar?

 

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