Leia uma das últimas entrevistas de Raul Cortez

Em outubro de 2003, o caderno de Variedades do Jornal da Tarde publicou uma longa entrevista com o ator Raul Cortez, em sua sessão Palavra Cruzada, cujo título era "Sabia que não iria morrer". No texto introdutório, o repórter constatava que o diagnóstico de câncer 11 meses antes tinha tirado o chão do ator. "Ao saber de suas poucas chances, o ator prometeu a si mesmo que só choraria quando estivesse curado. Começaram dias terríveis de um tratamento doloroso. Em setembro soube que estava definitivamente livre do câncer. Foi ao teatro e, pela primeira vez desde que ficou doente, chorou", diz o texto. Leia abaixo a íntegra da entrevista: Jornal da Tarde - Como o senhor está se sentindo? Raul Cortez - Eu estou curado. Estou livre, graças a Deus. Meu médico, depois de fazer os exames todos, telefonou e disse que eu poderia pegar meu passaporte para ir viajar porque estava curado. O que pensou nessa hora? É muito estranho. Quando recebi a notícia de que estava doente (com um câncer no duodeno), de que tinha pouca possibilidade de vida, meu primeiro impulso foi chorar. Só que na hora disse não, não vou chorar. Só vou chorar quando estiver curado. Será uma luta, uma batalha, mas não vou cair. Quando fiquei sabendo da doença, recusei todas as tentativas de ter pena de mim mesmo. Foi uma batalha muito grande. Ainda não sentei para ver todo o filme que foram esses dez meses, mas foi horrível. E agora, quando fiquei sabendo que não tinha absolutamente mais nada, que só teria que fazer os exames periódicos, aí falei: ?Bem, agora eu posso chorar?. Ainda é difícil falar sobre isso? Me emociono até agora. No dia 22 de setembro, um dia depois de saber de minha cura, fui ver uma peça com a Lilian Cabral. No final ela disse que estava dedicando aquele espetáculo de estréia a mim. Mas os termos que ela usou, a forma que ela foi revelando aos poucos que o homenageado era eu, foi terrível. Me escondi atrás de uma coluna para poder chorar. Era um choro compulsivo. que achei interessante foi que, nesse tempo todo, só fui chorar quando estava dentro de um teatro. O senhor nunca se sentiu perto de entregar os pontos? A maior luta dessa doença é a luta contra a depressão. Contra ela você tem que lidar sempre, a todo momento. A depressão é terrível e vem de repente. Fora isso havia os medicamentos dia sim, dia não. Hoje estou bem mas amanhã não vou estar, era assim. Isso é muito duro, há situações humilhantes, desagradáveis, existe uma perda de eixo. O que o salvou? Eu tinha certeza absoluta que iria ficar bom, nunca tive dúvidas. Via no hospital pessoas em situações piores do que a minha e muito desesperançadas. Eu sentia vontade de dar a elas uma alegria, queria fazer com que ficassem melhores. Acho que ter humor foi algo que me ajudou. Nunca caí em depressão. Quando percebia que tinha vontade de ir ao cinema mas que só o fato de ter que me vestir e me dava preguiça, aí é que eu ia mesmo. Me forçava a ir. Tudo isso me ajudou. Sou católico, rezei e rezo sempre desde criança. Sempre tive muita fé e fui muito ligado a Nossa Senhora de Aparecida. Essa Senhora me acompanha a vida inteira. Foi engraçado porque perdi minha mãe em março e isso poderia até me desestimular, mas como ela foi uma mulher muito forte que sempre me empurrou para a vida, eu fui para a vida. Quando descobriu a doença o senhor filmava a novela Senhora do Destino. Por que decidiu voltar a gravá-la mesmo estando em tratamento? Eu pedi licença para meu médico antes de começarem as seções de quimioterapia e fui gravar. Foi uma produção inacreditável. Em uma semana eu fiz não sei quantos capítulos, uma coisa absurda. E saíram forças de onde? Não sei, mas foram muitos capítulos. Fui com um enfermeiro para as gravações para terminar, eu tinha que terminar, não podia deixar aquilo pela metade. Fiz todo o final do meu personagem pensando: ?Se eu conseguir fazer meu personagem até o final é porque vou ficar curado?. O que a gente tem que fazer nessas situações é isso, sempre nos colocar desafios. O senhor conseguia interpretar naquela situação? Sim, tudo, perfeito. E para dizer mais, foram os dias em que o estúdio de gravações da Globo fechou mais cedo. Geralmente fecha às 21h. Comigo fechou às 17h. O que o senhor pensa agora em fazer da vida? Estou indo viajar. Vou para Nova York e depois Europa. Isso também é para me reenergizar para voltar a trabalhar. Tenho propostas de cinema, televisão e Teatro. Algo de concreto? Não gosto de falar, mas há um filme que vou fazer. E há outro, uma produção americana. Recebi um convite mas ninguém me comunicou mais nada. Acho até que essa produção, da O2 Filmes, nem saiu. Mandaram um script bem interessante, gostei muito, mas por descuido não colocaram telefone nem endereço. Não sei quem procurar. O novo cinema brasileiro ainda não o descobriu? O único filme que fiz foi O Outro Lado da Rua. Nunca fui muito procurado pelo cinema. Acredito mesmo que esteja havendo uma produção maior porque estou tendo mais convites agora. Deve ser por causa da idade. Com a idade você passa a ter uma biografia, passa a ter um rosto interessante. Quando se fala em Raul Cortez na televisão já se sabe o personagem que virá: um homem rico, sedutor e de caráter duvidoso. O estigma não o incomoda? Claro que me incomoda, muito. Eu compreendo que quando há um personagem assim é mais fácil dar logo para eu fazer. Eu vou ter facilidade de fazer o milionário, o cara meio sacana, elegante, tudo isso. Agora, isso não corresponde à minha realidade de ator. Em primeiro lugar porque com esses personagens é difícil você alçar grandes vôos. E em segundo porque isso é totalmente contrário a tudo o que eu faço no teatro. Sempre peguei os personagens marginais, políticos, transgressores. Nunca me ocorreu fazer um personagem no teatro como os que eu faço na televisão. Acho que até deveria porque ganharia muito dinheiro se aparecesse no teatro como um sedutor. O senhor é um para o teatro e outro para televisão? Isso porque me deram esse papel na televisão. Quando fiz Berdinazzi em O Rei do Gado me dei bem e conquistei todos os prêmios. E pagou o preço tendo que fazer depois uma série de personagens italianos. Mas aí eu acho legal. As pessoas dizem: ?Ah, isso é repetir?. Não acho que seja. O desafio é repetir não repetindo. O desafio que aceitei foi mostrar que existem vários tipos de italianos. E consegui isso de uma forma muito legal tanto na Terra Nostra quanto na Esperança. Em Esperança foi mais difícil porque eu já estava com os sintomas da doença. Quando fui para Itália rodar a novela estava com dores e mal humorado. Fiz o personagem assim e falei: ?Agora ele vai ficar mal humorado.?O senhor viu mais TV neste tempo em que esteve afastado? Muito DVD e via todos os jornais, que é o que eu mais gosto. Ia perguntar se viu novela. É chato falar mas não vejo. Aquilo te deixa escravizado, você fica seguindo a novela não sei quantas horas por noite. Eu prefiro ler. O senhor se viu um dia entre jornalismo, Direito e teatro. Qual teria sido o caminho mais infeliz? O Direito, sem dúvida. Eu não tinha nada a ver com aquilo. De jornalismo sim, eu gostava. Artistas em geral passam a detestar jornalismo depois que começam a falar com jornalistas. Eu li uma entrevista de uma pessoa bem conhecida dizendo que cada vez que se está sendo entrevistado se estabelece uma guerra entre entrevistado e entrevistador. Eu nunca me senti assim. Jornalismo, para resumir, é o seguinte: a melhor maneira de se debruçar sobre o próximo. A classe artística é muito PT. O senhor deve ter tido problemas por nunca ter sido simpatizante desse partido. O problema é não ter problema. Eu tenho direito de dizer o que eu acho, o que eu penso. As pessoas têm cada uma seu brilho, bem ou mal. Seja o brilho bom ou mau, belo ou feio, é preciso ter audácia para tê-lo. Isso vai incomodar, mas você é a única pessoa que pensa assim. Vai jogar fora tudo isso? Antes de se tornar ator o senhor era um homem travado? Mesmo depois de me tornar era um pouco travado. Engraçado que eu estava pensando nisso hoje. Eu era totalmente travado. Hoje em dia eu faço muita força para não ser mais, acho que depois dessa doença aí eu até melhorei. Mas olha a idade que eu já tenho. É uma coisa muito incrível. O Antunes (diretor Antunes Filho) sempre me dizia que no teatro eu estava defendendo minha vida. Hoje estava pensando nisso. Claro, eu era tão travado que quando ia para o palco, aquela era a minha realidade. Então eu tinha que defender aquele momento. Ali no palco eu estava pleno. O senhor era travado a ponto de quê? De não querer sair de casa, por exemplo? Não, não, pelo contrário. Eu saía e aprontava, brigava. Era travado emocionalmente, não me sentia bem. Quando entrava em um restaurante, por exemplo, ficava totalmente acuado. O senhor é muito diferente hoje do que era antes da doença? Eu sei que mudei. A consciência do que eu mudei ainda não tenho, mas sei que mudei. A coisa que ainda não gosto é do meu temperamento. Isso é muito chato. Mas não tenho nada a fazer, é da minha natureza. O senhor se acha muito chato? Ah, eu acho. É uma explosão que vem que eu não me contenho. Depois acaba e fica ótimo. Que sonhos tem hoje? Sonhos? Ah sim, o último foi ontem. Sonhei que deu porco na cabeça (risos).

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