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Leia trechos de 'Vida Querida' e 'Mobília de Família', de Alice Munro

Comparada a Chekhov, canadense foi premiada por sua maestria no conto

O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 21h32

Trecho do livro Vida Querida, de Alice Munro, lançado pela Companhia das Letras:

"Que chegue ao Japão

Quando Peter pôs a mala dela no trem ele pareceu querer sumir logo de vista. Mas não ir embora. Ele explicou a ela que simplesmente receava que o trem fosse começar a se mover. Da plataforma, olhando para a janela delas lá em cima, ele ficou acenando. Sorrindo, acenando. O sorriso para Katy era aberto, ensolarado, sem uma única sombra de dúvida, como se ele acreditasse que ela continuaria sendo um encanto para ele, e ele para ela, para sempre. O sorriso para sua mulher parecia esperançoso e confiante, e havia nele algum tipo de  determinação.

Alguma coisa que não podia facilmente ser posta em palavras e que na verdade talvez nunca pudesse. Se Greta tivesse mencionado uma coisa dessas, ele teria dito, Não seja ridícula. E ela teria concordado com ele, achando que não era normal que pessoas que se viam todo dia, o tempo todo, tivessem que ficar se dando qualquer tipo de explicações.

Quando Peter era bebê, a mãe dele o carregou através de umas montanhas cujo nome Greta vivia esquecendo, para sair da Tchecoslováquia soviética e entrar na Europa Ocidental. Tinha mais gente, claro. O pai de Peter queria ter ido com eles, mas tinha sido mandado para um sanatório logo antes da data da partida secreta. A ideia era que ele fosse atrás deles quando pudesse, mas acabou morrendo.

"Eu li umas histórias assim", Greta disse, quando Peter falou nisso pela primeira vez. Ela explicou como nas histórias o bebê começava a chorar e invariavelmente tinha que ser sufocado ou estrangulado para o barulho não pôr todo o grupo de ilegais em risco. Peter disse que nunca tinha ouvido uma história dessas e não saberia dizer o que sua mãe faria em tais circunstâncias."

Trecho do conto Mobília de Família, do livro Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, de Alice Munro, lançado pela Globo Livros

"Mobília de família

Alfrida. Meu pai a chamava de Freddie. Os dois eram primos em primeiro grau e moravam em fazendas adjacentes e depois, por algum tempo, na mesma casa. Um dia estavam do lado de fora nos campos de restolhos brincando com o cão de meu pai, cujo nome era Mack. Nesse dia o sol brilhava, mas não derretera o gelo nos sulcos do arado. Eles pisoteavam o gelo e apreciavam o som de estalidos sob seus pés.

Como poderia ela lembrar-se de uma coisa como essa?, disse meu pai. Ela inventou, ele disse.

– Eu não inventei – ela disse.

– Inventou.

– Não inventei.

De repente ouviram sinos repicando, apitos soprando. O sino da prefeitura e os sinos da igreja soavam. Os apitos da fábrica tocavam na cidade a cinco quilômetros de distância. O mundo abrira suas suturas para a alegria, e Mack disparou estrada afora, pois tinha certeza de que uma parada se aproximava. Era o fim da Primeira Guerra Mundial.

Três vezes por semana, podíamos ver o nome de Alfrida no jornal. Só seu primeiro nome – Alfrida. Estava impresso como se escrito à mão, uma assinatura fluida de caneta-tinteiro. A Cidade de Alto a Baixo, com Alfrida. A cidade mencionada não era a que ficava perto, mas a cidade ao sul, onde Alfrida morava, e que minha família visitava talvez uma vez a cada dois ou três anos.

Está na época de todas vocês, futuras noivas de junho, começarem a registrar suas preferências no guarda-louças, e devo lhes dizer que se eu estivesse prestes a me casar – o que, ai de mim, não estou –, talvez resistisse a todos os jogos de jantar padronizados, por mais elegantes que sejam, e optaria pela ultramoderna Rosenthal perolada...

Tratamentos de beleza vêm e vão, provavelmente, mas as abundantes máscaras que esparramam em você no Salão de Fantine são uma garantia – falando em noivas – de fazer sua pele brilhar como flores de laranjeira. E de fazer a mãe da noiva – e as tias da noiva e, até onde as conheço, suas avós – sentir-se como se acabasse de dar um mergulho na fonte da juventude...

Ninguém seria capaz de imaginar Alfrida escrevendo nesse estilo, pela forma como falava.

Era também uma das pessoas que escrevia sob o nome de Flora Simpson, na Página de Flora Simpson para a Dona de Casa. Mulheres do país inteiro acreditavam que escreviam suas cartas para a mulher rechonchuda de cabelo grisalho ondulado e sorriso benevolente retratada no alto da página. Mas a verdade – que não deveria vir à tona – era que as observações que apareciam no final de cada uma de suas cartas eram criadas por Alfrida e um homem chamado Henry Cavalo, que no mais fazia também os obituários. As mulheres alcunhavam-se de nomes como Estrela da Manhã, Lírio do Vale, Polegar Verde, Little Annie Rooney, Rainha do Esfregão. Certos nomes eram tão populares que era preciso acrescentar números a eles – Amor-Perfeito 1, Amor-Perfeito 2, Amor-Perfeito 3. "

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