Leia trechos de 'Romance com Pessoas', de José Luiz Passos

Obra expõe contaminação de Shakespeare na obra de Machado de Assis

25 de abril de 2014 | 19h30

"Shakespeare é um dos lastros da representação machadiana da pessoa moral. O uso que Machado fez de referências ao drama shakespeariano foi constante, embora tenha mudado entre as duas fases. Em Ressurreição, Luís Batista, o rival de Félix, imita e corrige o método de Iago para destilar sua malícia; em A Mão e a Luva, uma encenação de Otelo prefigura o triunfo da mútua eleição racional do par amoroso; em Helena, o pai da heroína sublima a traição de sua esposa citando o pai de Desdêmona: 'Ela enganou seu pai, diz Brabâncio a Otelo, há de enganar-te a ti também'; em Iaiá Garcia, Estela experimenta o ápice da vergonha de sua posição agregada numa comparação dos beijos, que lhe foram impostos pelo filho da casa, com a cena do sonambulismo de Lady Macbeth, 'Out, damned spot!'. Em todas essas ocasiões, e em dezenas de referências presentes nos contos, crônicas e poesias da primeira fase, as citações de Shakespeare servem para definir personagens ou eventos e ampliar sua intensidade gramática. As referências pontuam momentos de esclarecimento moral dos protagonistas. Mas a partir do final da década de 1870, o uso dessas citações se transforma consideravelmente."

"Por um lado, Shakespeare é uma das fontes literárias usadas pelos narradores astuciosos de Machado; por outro lado, essas peças parecem ter informado a própria busca machadiana de novos modos para garantir profundidade psicológica aos protagonistas, fazendo-os existir sob a impressão ou o desejo de estarem vivendo vidas e dramas que já foram vividos anteriormente. (...) Dom Casmurro retoma o longo relacionamento entre Machado e Shakespeare. A decisão machadiana de compor uma versão moderna de Otelo não pode ser vista com surpresa, nem tampouco considerada irrelevante. Dom Casmurro adotou tanto o método quanto a técnica de Brás Cubas: o narrador charmoso, autobiográfico e inconfiável, obcecado pela conjunção conflituosa entre autoconhecimento e evasão da culpa. Neste romance, Machado fez o marido de Anna Kariênina narrar o fado do casal; permitiu a um Otelo malicioso que ele próprio contasse sua versão da tragédia, fazendo o autoengano, a insinuação e a retrospectiva deslocarem qualquer dinal de confiança."

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