Leia trechos de 'Os Sonâmbulos' e de 'O Escritor e Sua Missão'

Trecho de Pasenow ou O Romantismo, primeiro volume de Os Sonâmbulos, de Hermann Broch (Benvirá; tradução de Marcelo Backes)

03 de dezembro de 2011 | 06h00

"Bertrand poderia muito bem dizer algo sobre o tema do uniforme: primeiro era apenas a Igreja que regia como juíza sobre os homens, e qualquer um sabia que era um pecador. Agora o pecador é obrigado a julgar o pecador a fim de que os valores não acabem todos em anarquia, e, em vez de chorar com ele, o irmão é obrigado a dizer ao irmão: "Você agiu de modo errado". E se no passado era o mero traje de clérigo que se destacava com algo desumano do traje dos outros, e se na época o aspecto civil ainda transparecia mesmo no uniforme e no traje oficial, agora, uma vez que a grande intolerância da crença se perdeu, o traje oficial terreno deve de ser colocado no lugar do traje celestial, e a sociedade precisou se diferenciar em uniformes e hierarquias terrenas e elevá-las ao absoluto no lugar da crença. E como é sempre romantismo quando o terreno é elevado à condição de absoluto, o romantismo severo e genuníno dessa época é o romantismo do uniforme, como se existisisse uma ideia sobrenatural e atemporal do uniforme, uma ideia que não existe e que ainda assim é tão violenta a ponto de pegar os homens de um modo bem mais forte do que qualquer outra profissão terrena lograria conseguir; uma ideia inexistente e ao mesmo tempo tão violenta que faz do uniformizado um possuído do uniforme, mas jamais um homem de profissão no sentido civil da questão, talvez justamente porque o homem que usa o unforme se mostra saciado da consciência de satisfazer a verdadeira forma de vida de sua época, e com isso também a segurança de sua própria vida.

Bertrand gostava de falar assim; mas, ainda que por certo nem todo aquele que usa um uniforme tenha consciencia disso, pode-se dizer, pelo menos, que qualquer um que veste o uniforme ao longo dos anos encontra nele uma melhor ordem das coisas do que o homem que apenas troca o hábito civil da noite pelo do dia. Com certeza não precisa pensar acerca dessas coisas de modo especial, pois um verdadeiro uniforme dà àquele que o veste uma delimitação especial de sua pessoa em relação ao mundo que o cerca; o unifome é como um estojo duro no qual o mundo e pessoa se chocam clara e nitidamente e se diferenciam um do outro; pois a verdadeira tarefa do uniforme é mostrar e estabelecer a ordem no mundo e deixar nítido o que se torna vago e desvanecido, assim como esconder o que é mole e difuso no corpo humano, cobrindo suas roupas de baixo, sua pele, e o soldado em seu posto tem de usar as luvas brancas."

Trecho do ensaio sobre Goethe do livro O Escritor e Sua Missão, de Thomas Man (Zahar; tradução de Kristina Michahelles)

"Numa conversa, esse filho de uma família burguesa de Frankfurt certa vez referiu-se às dificuldades que um talento como Byron teve de enfrentar por conta do ambiente em que nasceu, por pertencer a uma classe nobre e dispor de grande fortuna. Segundo Goethe, uma condição mediana é muito mais propícia para o talento, razão pela qual 'encontramos todos os grandes artistas e poetas na classe média'. Esse elogio ao estrato médio enquanto solo fértil para o talento não é raro em Goethe; há numerosos trechos em suas conversas em que ele atribui à burguesia aquilo que no caso de Hermann e Dorothea chamamos de humanidade inabalável, esta 'formação bela e tranquila' que, para utilizar a sua expressão, 'faz perdurar essa classe em tempos de guerra e de paz.'"

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