Leia trechos de obras de escritores chineses

Autores cujas famílias foram perseguidas falam sobre os 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial

Da Redação,

20 de junho de 2009 | 19h47

Três escritores chineses cujas famílias foram perseguidas durante a Revolução Cultural maoísta (1966-1976) falam sobre os 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial: Xinran, Ma Jian e  Diane Wei Liang. Confira trechos de suas obras. 

 

 

Trecho do livro 'Testemunhas da China', de Xinran

"As histórias dele me impressionaram profundamente. Nunca havia imaginado que alguém que o governo mantivera preso por décadas como um rebelde, uma ameaça à sociedade, pudesse mostrar tanta coragem e ânimo: que esse velho frágil tivesse levado uma vida tão agitada, ou que as comunidades ao longo da Rota da Seda pudessem ter coexistido tão harmoniosamente com essa estranha, aparentemente criminosa organização. Em chinês, a palavra 'rebelde' tem conotação completamente negativa. Mas os rebeldes da Rota da Seda mantiveram sua própria cultura e seus padrões morais. Hu Feibao mexeu comigo a ponto de me fazer reavaliar minha própria capacidade de julgamento do que é certo e errado e minha compreensão da sociedade chinesa. Nossa tendência a julgar outras sociedades pelos próprios padrões pode nos levar a punir inocentes.

Quando decidi realizar as entrevistas para este livro, em 2006, Hu Feibao havia tido um derrame. Liguei para o campo onde trabalhava e o responsável me disse que ele não conseguia mais falar. Suspeitando que as autoridades tentavam impedi-lo de conversar comigo, tentei novamente algum tempo depois. Dessa vez, consegui falar com ele diretamente. Sua voz tartamudeava, indistinta; perdera o tom confiante e altivo que décadas na prisão não haviam conseguido esmorecer. Imaginei-o segurando com dedos trêmulos o telefone, babando sobre ele. Sabia que não era assim que esse homem, um dia uma figura formidável, gostaria de ser lembrado. "

 

 

Trecho do livro 'Pequim em Coma', de Ma Jian

As células de seus lobos temporais começam a vibrar mais uma vez. Os neurônios espalham seus galhos dendríticos, permitindo que cálidas memórias fluam para seu tálamo.

- Dai We! Você está me ouvindo? É sua mãe... Meu Deus! Suas pálpebras estão se movendo. Estão se movendo mesmo. Não perdi meu tempo. Todas aquelas injeções valeram a pena. Meu Deus! Deixe-me colocar outro travesseiro sob sua cabeça!

Eu também sinto que estou emergindo de um sono profundo. Posso sentir meus quatro membros, a cabeça que minha mãe está elevando, o soro preso a meu braço. Um cheiro forte de desinfetante se inocula em meu cérebro. Percebo que meu corpo está intacto e deitado imóvel na cama.

Talvez tudo esteja bem agora. Talvez eu possa voltar para o mundo.

- Você é um sobrevivente, meu filho - diz minha mãe. - Não importa o que aconteça, vou fazer todo o possível para tirá-lo deste país. Ouça, vou cantar uma música para você. Eu cantava isso quando você era bebê. Assim que você ouvia, parava de chorar na hora... "Pegue sua pena e use como espada! O Partido é sua mãe e seu pai. Quem ousar criticar o Partido será banido para as profundezas do Inferno!" Ah, querido, você não vai gostar dessa letra. Esqueça. Contanto que possa ouvir a voz de sua mãe... Hoje é dia 23 de abril de 1990. Faz alguns meses que você foi trazido do hospital, mas provavelmente você não faz a menor ideia de que esteve lá. O médico disse que as pessoas que entram num coma como o seu geralmente morrem dentro de seis meses. Mas, veja, você ainda está vivo. Eu lhe disse para não se envolver com o movimento estudantil. Ah, Deus, você ficaria melhor se continuasse em coma. A polícia diz que assim que você acordar, vão aparecer para prendê-lo.

Meus ouvidos transmitem o ruído dos soluços e suspiros de minha mãe para meus lobos temporais. Logo, imagens e conversas que cruzaram minha mente retornam vagarosamente: Mao Da sentado na frente do vadio, mastigando amendoins... "Arrebente com ele, é o que eu digo! Que insulto para o povo chinês!"... "Apareceram poucos estudantes de ciências. Você trouxe a faixa?"... "Ponha a língua para fora e engula essas pílulas"... O reflexo de A-Mei no espelho, fitando-me diretamente nos olhos... "Já prendi muitos marginais como você antes, e todos levaram uma boa surra"...

O mundo real parece se distanciar mais uma vez.

 

 

Trecho de 'Lago Sem Nome', de Diane Wei Liang 

- Quanto custa ir até a praça Tiananmen? - perguntei.

- Por cem iuanes, dou uma volta na praça.

Claro que nós pechinchamos. Um instante após, demos ao motorista oitenta iuanes e entramos no riquixá.

- Por que vocês querem ir lá? Não tem nada para ver agora. Vão no final da tarde, quando muita gente assiste à cerimônia de retirada da bandeira.

Saímos das estreitas e lotadas ruas laterais e entramos na ampla e arborizada avenida da Paz Eterna.

Aos poucos, a praça Tiananmen (em chinês, da Paz Celestial) surgiu aos nossos olhos como um velho livro de contos de fada. Ao norte, o magnífico Portão da Paz Celestial dominava a praça num glorioso vermelho e dourado. Foi nesse portão, 47 anos antes, que Mao Tsé-Tung proclamara a República do Povo. Agora, o retrato dele olhava para o sul, para a Praça da Paz Celestial. De cada lado do retrato, um grande cartaz dizia Viva a República do Povo e Povos do Mundo, uni-vos. Na década de 1950, Mao mandara ampliar a praça para 0,5 quilômetro quadrado, triplicando seu tamanho, para poder reunir milhões de pessoas em passeatas. Desde então, a Guarda Vermelha passou a desfilar lá, onde também se realizou o velório público do primeiro-ministro Zhou Enali e, claro, as manifestações de massa do Movimento Democrático Estudantil, em 1989.

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