Leia trechos de 'K.' e de 'Você Vai Voltar Para Mim', de Bernardo Kucinski

Dois livros de Bernardo Kucinski, jornalista e professor aposentado da Usp, que chegam agora às livrarias, têm como cenário o período da ditadura militar. Leia a seguir trechos de K., romance lançado em 2011 e que ganha agora nova edição, e do livro de contos Você Vai Voltar Para Mim.

O Estado de S. Paulo

07 de março de 2014 | 21h19

Trecho de K. - Relato de Uma Busca

"A tragédia já avançara inexorável quando, naquela manhã de domingo, K. sentiu pela primeira vez a angústia que logo o tomaria por completo. Há dez dias a filha não telefona. Depois, ele culparia a ausência dos ritos de família, ainda mais necessários em tempos difíceis, o telefonar uma vez por dia, o almoço aos domingos. A filha não afinava com sua segunda mulher. 

E como não perceber o tumulto dos novos tempos, ele, escolado em política? Quem sabe teria sido diferente se, em vez dos amigos escritores do iídiche, essa língua morta que só poucos velhos ainda falam, prestasse mais atenção ao que acontecia no país naquele momento? Quem sabe? Que importa o iídiche? Nada. Uma língua-cadáver, isso sim, que eles pranteavam nessas reuniões semanais, em vez de cuidar dos vivos. 

Associava o domingo à filha desde quando lhe trazia regalos no dia da feira. Súbito, lembrou rumores da véspera, no Bom Retiro; dois estudantes judeus da medicina teriam desaparecido, um deles, dizia-se, de família rica. Coisa da política, disseram, da ditadura, não tinha a ver com antissemitismo. Também sumiram outros, não-judeus, por isso a Federação decidira não se meter. Esse era o boato, talvez nem fosse verdade; pois não diziam quem eram os rapazes. 

Foi o rumor que o fez inquieto, não foi o domingo. Passou o dia discando um número de telefone que a filha lhe dera para urgências, mas o toque ecoava solitário. Sem resposta, nem à uma da madrugada, quando ela deveria estar de volta mesmo que tivesse ido ao cinema, de que tanto gostava, decidiu procurá-la no dia seguinte na universidade.

Naquela noite sonhou ele menino, os cossacos invadindo a sapataria do pai para que lhes costurasse as polainas das botinas. Despertou cedo, sobressaltado. Os cossacos, lembrou-se, haviam chegado justo no Tisha Beav, o dia de todas as desgraças do povo judeu, o dia da destruição do primeiro templo e do segundo, e também o da expulsão da Espanha.

Sem saber o que temer, mas já temendo, e sem acordar a mulher, tirou o Austin da garagem e dirigiu rumo ao campus da universidade, distante na planície, do outro lado do emaranhado de arranha-céus. Conduzia devagar, demorando-se ao atravessar o centro, como se não quisesse chegar nunca; os sentimentos alternando-se entre a certeza de encontrá-la trabalhando normalmente, e o medo do seu contrário. Por fim, atingiu o Conjunto das Químicas, onde estivera uma única vez, havia anos, quando a filha defendera seu doutorado perante um grupo de professores de semblantes severos, alguns deles formados ainda na Alemanha.

Ela não veio hoje, disseram as amigas. Hesitantes, olhavam de soslaio umas para as outras. (...)"

Trecho do conto A Negra Zeleika, de Você Vai Voltar Para Mim

1. Zuleika

Zuleika veio à praia a convite das amigas do prédio. Sábado é dia de folga, dia de voltar pra São Gonçalo, onde estão os filhos com a avó Fortunata, mas este sábado está demais de quente, o céu azul total. E a praia de Copacabana bem em frente. Quem resiste?

Zuleika tem dezoito anos e corpo de mulher madura. É uma negra formosa, do tipo azulona, como se diz quando a pele é preto puro, reluzente, do jeito que era na África, sangue de reis. Zuleika é vivida.

Com catorze anos já estava na zona, depois foi catadora, passadora de droga, de novo na zona, quituteira, agora é babá. As outras duas são cozinheiras.

Trabalham as três no mesmo prédio. Zuleika está de biquíni branco. As duas amigas são mulatas de tez café com leite; uma está de biquíni azul, a outra de vermelho. Conversam animadas enquanto quanto Zuleika cantarola uma canção que ouvira dias antes no apê dos patrões. É uma canção que fala de não esperar, de ir embora, não para fugir, para fazer e acontecer. É com ela mesma, Zuleika faz e acontece.

2. Percival

Percival veio à praia a convite de um figurão do prédio. Sábado é dia de clube. Percival prefere a piscina do clube porque não gosta de se misturar. No clube só tem gente fina, o pessoal do Jockey, os colegas da Câmara de Comércio; à praia vem qualquer um. Mas o figurão insistiu, deixa de ser fresco, vamos lá tomar umas e outras e apreciar o mulherio.

Com o figurão vieram mais dois. Um deles trouxe o isopor com as cervejas. Percival acompanha incomodado. Isso de trazer isopor é coisa de farofeiro. Percival é um solteirão de família ilustre, um Brito de Almeida, tem quarenta e dois anos, só veste roupa de grife e detesta povão. Hoje está de shorts Pierre Cardin, camiseta Lacoste e óculos Ray-Ban.

Percival percebe a negra Zuleika naquele grupinho de mulheres mais à frente. A areia da praia é toda branca, a praia é de brancos. Já irritado, diz: não sei o que essa negada vem fazer em Copacabana, por que é que eles não vão pra praia deles, lá na Boca ou na Cocota? Deixa de ser racista, Percival, a negra até que é bem-apanhada. Racista coisa alguma; escuta bem o que ela está cantando, é a música do Vandré, essa crioula é comunista, veio provocar, é uma subversiva, vou dar uma lição nessa negra abusada. Percival pede licença, vai até o orelhão ali na calçada e disca 190. (...)"

Tudo o que sabemos sobre:
Literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.