Leia trechos de biografias que chegam ao mercado

Livrarias brasileiras recebem novos textos sobre grandes personalidades das letras e das artes

estadao.com.br,

19 de março de 2010 | 19h31

Leia trechos das biografias de Kafka, Rimbaud, García Márquez e Picasso.

 

 

Trecho de O Mundo Prodigioso que Tenho na Cabeça: Franz Kafka, um Ensaio Biográfico, de Louis Begley

 

Os adeptos da teoria biográfica não escoram sua argumentação apenas em transposições de papéis, coincidências e coisas do gênero: também apontam o tormento de Kafka por ter induzido Felice a aceitar seu pedido de casamento quando no fundo sabia que a união era impossível para ele. Os sentimentos de culpa de Kafka eram sinceros, mesmo que excessivamente dramatizados, como se vê, por exemplo, na seguinte anotação em seu diário:

 

"Minha relação com a família dela só tem um significado consistente se eu conceber a mim mesmo como a ruína deles (...) Fiz F. infeliz, enfraqueci a resistência de todos os que precisam tanto dela agora, contribuí para a morte de seu pai, interpus-me entre Felice e Erna (...)"

 

Esses sentimentos de Kafka, contudo, eram apenas um elemento da sua vasta e indiferenciada sensação de culpabilidade e inadequação. Suas origens não tinham relação com o rompimento do noivado: eram mais profundas. Analogamente, a humilhação sofrida durante o episódio no Askanische Hof misturava-se à experiência direta e indireta de outras humilhações e punições, todas elas também envolvendo julgamentos: os casos Tiszaeszláer, Hilsner, Beilis e, obviamente, Dreyfus.

 

Ainda assim, é possível que o incidente no Askanische Hof tenha, em certo sentido, dado a partida em O Processo - e talvez até inspirado o título da obra, já que Kafka mencionou no diário o "tribunal no hotel". Por outro lado, ele também usou o termo "processo" de modo revelador cinco anos depois em outro contexto, referindo-se na Carta ao Pai a "esse processo terrível que paira entre nós (Kafka e suas irmãs) e você (o pai deles)". Talvez essa palavra esteja sempre nos lábios dos advogados. Além disso, Kafka também poderia divertir-se espalhando dicas que aludiam a uma ligação com Felice. Por exemplo, na descrição do quarto da sra. Bürstner, srta. Montag, que confronta K. como emissária da moça, talvez tenha sido introduzida porque Kafka desejasse provocar Grete Bloch. Mas sejam quais forem os fragmentos da biografia de Kafka que uma busca diligente em todo o romance possa revelar, eles não acrescentarão nada de significativo nem possibilitarão um novo nível de entendimento. O Processo não fala de Felice, Grete Bloch ou da corte de Kafka a Felice, e sim de uma provação cujas natureza e implicações não se compararam ao "outro processo de Kafka".

 

Trecho de Rimbaud: A Vida Dupla de um Rebelde, de Edmund White

 

Frustrado como competidor literário, chocado e sentindo-se desamparado por causa do destino de Verlaine, Rimbaud voltou sem alarde para Paris. Ali ele era um pária social: ninguém se sentava à sua mesa nos cafés que frequentava. Tinha apenas três ou quatro amigos - e um novo companheiro, Germain Nouveau, um poeta desconhecido, originário da Provença, que tinha se mudado para a capital. Nouveau, três anos mais velho que Rimbaud, havia perdido a mãe aos oito anos e o pai aos doze - e agora exaurira rapidamente sua pequena herança numa clássica vida boêmia de dissipação. Nouveau tinha pouco mais de um metro e meio de altura, cabelo escuro e espesso puxado para trás das orelhas e uma barba cacheada que terminava em duas pontas - e olhos negros, de intensidade assustadora. Seu forte sotaque provençal fazia as pessoas sorrirem. Caiu imediatamente sob o feitiço de Rimbaud (o que incomodou seus poucos amigos) e quase no mesmo instante os dois jovens decidiram abandonar Paris e viajar juntos para Londres.

 

Nouveau seria homossexual e estaria apaixonado por Rimbaud? Ele se envolvera com uma mulher pouco antes de conhecer Rimbaud, mas tempos depois escreveria um poema estranho e ambíguo chamado "A Recusa" - um exercício semi-humorístico, francamente obscurso, sem dúvida brincalhão, que começa anunciando "Sou um pederasta na alma", mas termina com a declaração "Não sou um pederasta". Entre o primeiro e o último versos, o poeta reflete sobre a experiência de viver rodeado pelas suspeitas, uma infâmia que envenena a amizade: "A amizade, essa linda cadela/ Que uiva para sua lua de amor". Nouveau descreve o fundador da escola de pederastia, um movimento que não conta com muitos adeptos. O nome do fundador, diz-nos ele, rima com veau (vitelo) - é claro que poderia ser Rimbaud ou Nouveau. Em seguida, ele nos conta que quase toda a humanidade se filia à heterossexualidade, mas existe uma exceção - possivelmente Rimbaud, embora pronunciar esse nome pudesse ofender os "castos ouvidos" da dama a quem todo poema é dirigido. Numa outra passagem estranha: mesmo sendo "apenas meio homem" (uma referência a sua baixa estatura), não tem ele o direito de buscar alguém que possa completá-lo?

 

Trecho de Rosebud - Fragmentos de Biografias, de Pierre Assouline

 

"Estamos em meados dos anos 1930. O ateliê da rua La Boétie, onde Picaso se instalou, é pequeno demais. Dora Maar se encarrega de encontrar outra coisa no Quartier Latin onde ela vive, o mais perto possível de sua casa, na rua de Savoie. Fala-se de um lugar na rua dos Grandes-Augustins. Aquele que Georges Bataille utilizou para reuniões de seu grupo Contra-Ataque. O mesmo que Jean-Louis Barrault ocupou para seus ensaios de teatro do grupo Octobre, depois de ter feito trabalhar ali sua primeira trupe, a Compagnie du grenier des augustins. Antes deles, ali tinha estado o ateliê de um tecelão. (...)

 

Picasso é imediatamente conquistado. O lugar tem um não sei quê do Bateau-Lavoir, mais amplo. Poucos biógrafos se aventuram a imaginar que o pintor e sua companheira se tenham aproximado de Balzac. Um deles até julga ver ali 'um sinal do destino'. Nenhuma alusão, porém, nas cartas, lembranças, arquivos, entrevistas de Picasso. Nem sequer a posteriori. Em 1937, o número 7 da rua dos Grands-Augustins é par ele 'o sótão de Barrault', após ter sido para ela 'o local de Bataille', e, antes de se tornar o 'ateliê de Picasso'. O casal ignora tudo sobre o passado da antiga residência dos duques de Saboia. (...) 'É aqui'. Picasso pregou com percevejos um pedaço de papel na porta, dirigido àqueles a quem o ambiente assusta. Atrás da porta, o ateliê se impõe imediatamente como as grandes personagens".

 

Trecho de Gabriel García Márquez: Uma Vida, de Gerald Martin

 

"García Márquez sempre temera a morte e, por consequência, também temera as doenças. Desde que se tornara famoso, sempre seguira quase todas as recomendações médicas para uma vida saudável. E agora, apesar de todas as precauções, tinha adoecido. Poucas coisas eram mais aterradoras do que um câncer no pulmão. Mesmo assim, ele surpreendeu a si mesmo e àqueles que o conheciam. Aceitou o desafio e insistiu em aprender tudo sobre a doença e seus prováveis prognósticos, para depois se gabar: 'Eu dominei minha vida'. Gabo deveria fazer repouso absoluto durante seis semanas, mas em 10 de junho anunciaram que ele estaria na Exposição de Sevilha em julho, como previsto, não apenas para inaugurar o Pavilhão da Colômbia mas também para lançar seu livro mais recente. Sabia-se que agora havia 12 'contos peregrinos', e que o livro estava pronto.

 

García Márquez quase tomou de assalto a Exposição de Sevilha. Depois de sua chegada à cidade andaluza, tornou-se mestre absoluto do stand da Colômbi, apesar de ter declarado em Madri que não haveria um 'Pavilhão de Macondo' em Sevilha. (...)

Na realidade, essa foi a primeira vez que García Márquez compareceu ao lançamento de um de seus livros

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