Leia trechos da trilogia 'Blue Ant', de William Gibson

Livros estão sendo lançados no Brasil pela editora Aleph

11 de janeiro de 2014 | 02h48

Trecho de Reconhecimento de Padrões

Cinco horas de jet lag em relação a Nova York e Cayce Pollard acorda em Camden Town como se seu ritmo circadiano interrompido fosse uma matilha de lobos maus trotando ao seu redor.

É aquela não-hora vazia e espectral, encharcada em ondas límbicas, o tronco cerebral reagindo de acordo, piscando exigências reptilianas inadequadas de sexo, comida, sedação, todas as alternativas anteriores, e, falando sério, nenhuma delas uma opção agora.

Nem sequer comida, porque a cozinha nova de Damien está tão despida de conteúdo comestível quanto as vitrines da Camden High Street estão vazias dos displays de seus designers. Muito bonitos, os gabinetes superiores apresentam uma parte dianteira de laminado amarelo-canário, os inferiores de compensado de alta densidade Applepy laqueado e sem manchas. Muito limpa e quase inteiramente vazia, a não ser por uma caixa contendo dois saquinhos ressecados de cereais Weetabix e umas bolsinhas soltas de chá de ervas. Absolutamente nada na geladeira alemã tão nova que seu interior tem cheiro somente de frio e de monômeros de cadeia longa.

Trecho de Território Fantasma

O velho fez Tito lembrar daqueles anúncios fantasmas, que vão desbotando no alto da lateral sem janelas de um prédio escurecido, com nomes de produtos que perderam o significado com o tempo.

Caso Tito visse um anúncio desses com a última notícia, a mais recente e terrível, mas soubesse que sempre estivera la?, desbotando com as intempéries, ignorado até? hoje, talvez sentisse algo semelhante ao encontrar o velho na Washington Square, ao lado das mesas de xadrez de concreto, e lhe passar cuidadosamente um iPod debaixo de um jornal dobrado.

Toda vez que o velho, inexpressivo e olhando para outro lado, embolsava um iPod, Tito notava o ouro opaco do relógio de pulso, o mostrador e os ponteiros quase desaparecendo atrás do cristal de plástico gasto. O relógio de um homem morto, como os que ficam nas caixas de charutos amontoadas de um brechó?

As roupas também pareciam de defunto, feitas de tecidos que Tito imaginava exalar um frio próprio, diferente do frio desse fim de inverno irregular em Nova York. O frio de bagagens abandonadas, corredores institucionais, de armários de aço com a tinta descascada.

Mas certamente aquilo era disfarce, protocolo de aparências. O velho não poderia ser pobre de fato e fazer nego?cio com os tios de Tito. Notando o poder e a paciência enorme, Tito imaginou que esse velho estava fantasiado, por razões próprias, de um fantasma do passado da baixa Manhattan.

Cada vez que o velho recebia um iPod, aceitando-o da mesma maneira que um primata antigo e sagaz aceitaria uma fruta não muito interessante, Tito meio que esperava que ele quebrasse o invólucro branco e virginal como uma noz e depois retirasse algo extremamente peculiar e horrendo, de algum modo terrível em sua contemporaneidade.

Trecho de História Zero

- Nós não somos apenas uma agência de publicidade, sei que você sabe disso. Nós fazemos o branding de transmissão de visão, previsão de tendências, gestão de vendas, reconhecimento de mercados jovens, planejamento estratégico em geral.

- Por que aquele comercial nunca foi ao ar, aquele pelo qual nos pagaram toda aquela grana para usar "Hard to Be One"? Ele mergulhou um pedacinho de torrada no olho amarelo escorrido de um ovo frito, mordeu metade dela, mastigou, engoliu, limpou os lábios com o guardanapo.

- Você se importa com isso?

- Foi muito dinheiro.

- Foi a China - ele disse. - O veículo para o qual o anúncio foi criado acabou não sendo lançado. Nem será.

- Por que não?

- Problemas de design. Fundamentais. O governo deles decidiu que aquele não era o veículo com o qual a China deveria entrar no mercado mundial. Particularmente não à luz dos diversos escândalos envolvendo produtos alimentícios animais contaminados. E outras coisas mais.

- Foi tão ruim assim?

- Totalmente. - Ele enfiou feijões cozidos na torrada com o garfo. - No fim das contas, não precisaram da sua música - ele disse - e, até onde sabemos, os executivos encarregados do projeto ainda estão muito vivos. Um resultado ideal para todos os envolvidos. - Ele começou a atacar o bacon. Ela comeu seu farelo e as frutas, sem deixar de olhar para ele. Ele comia rapidamente, superando metodicamente o que quer que o metabolismo continuasse disparando para aqueles cilindros extras. Ela nunca o havia visto cansado, nem sofrendo de jet lag. Ele parecia existir em sua própria zona de tempo pessoal.

Ele terminou antes dela, limpando o prato com um último semitriângulo de torrada Cabinet dourada.

- Branding de transmissão de visão - ele disse.

- Sim - ela ergueu uma sobrancelha.

- Narrativa. Consumidores não compram produtos, mas narrativas.

- Essa é velha - ela disse. - Deve ser, porque já ouvi antes. - Ela tomou um gole de café frio.

- Até certo ponto, uma ideia dessas se torna uma profecia auto-realizadora. Designers são ensinados a inventar personagens, com narrativas, para as quais então criam produtos, ou ao redor das quais. Procedimento padrão. Existem procedimentos semelhantes em branding de modo geral, na invenção de novos produtos, novas empresas, de todos os tipos.

- Então funciona?

- Ah, funciona - ele disse. - Mas, como funciona, se tornou algo garantido. Quando você consegue um jeito de fazer as coisas, a margem migra. Vai para outra parte.

- Onde?

- É aí que você entra - ele disse.

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