Leia trecho do romance 'Terrorista', de John Updike

O escritor norte-americano morreu de câncer no pulmão, aos 76 anos, nos Estados Unidos

John Updike,

27 de janeiro de 2009 | 18h54

O romancista John Updike, um dos grandes nomes da literatura norte-americana morreu nesta terça, aos 76 anos, de um câncer no pulmão, segundo informou seu editor Alfred A.Knopf. Leia trecho de seu romance Terrorista, lançado no Brasil em 2007. Na obra, o escritor conta a história do jovem Ahmad, filho de pai árabe e mãe irlandesa-americana, que vive o dilema de ter de escolher entre seguir o conselho de um professor de sua escola, um judeu nem um pouco religioso, que o instiga a estudar para entrar na faculdade, ou entrar para um grupo de terrorismo internacional ligado a atentados suicidas por influência do xeique Rashid, imã da mesquita que ele costuma frequentar. Demônios, pensa Ahmad. Esses demônios querem tomar de mim meu Deus. O dia inteiro, na Central High School, as meninas rebolam, debocham e exibem seus corpos macios, seus cabelos sedutores. Os ventres nus, enfeitados com vistosos piercings no umbigo e tatuagens lascivas em roxo, indagam: O que mais há para mostrar? Os rapazes desfilam, blasés e orgulhosos, com olhares mortos, indicando, com gestos violentos de assassinos e risos indiferentes e sarcásticos, que este mundo é tudo que existe - um corredor barulhento, envernizado, cheio de armários de metal e terminando numa parede lisa, profanada por grafites e tantas vezes pintada e repintada que dá a impressão de estar avançando cada vez mais, milímetro por milímetro. Os professores, cristãos débeis e judeus não praticantes, falam palavras vazias sobre a virtude e a honradez do autocontrole, porém seus olhares esquivos e suas vozes insinceras traem sua falta de fé. Eles são pagos para dizer essas coisas, pagos pela prefeitura de New Prospect e pelo governo estadual de Nova Jersey. Ahmad e os dois mil outros alunos os vêem se enfiando em seus carros depois das aulas no estacionamento apinhado, pontilhado de lixo, como tantos caranguejos pálidos ou escuros que voltassem a suas cascas, e são homens e mulheres como quaisquer outros, cheios de concupiscência e medo e paixão por coisas que podem ser compradas. Infiéis, pensam que a segurança está em acumular coisas deste mundo e nas diversões corruptoras da televisão. São escravos das imagens, imagens falsas de felicidade e riqueza. Mas mesmo as imagens verdadeiras são imitações pecaminosas de Deus, o único ser capaz de criar. O alívio por ter escapado incólumes de seus alunos por mais um dia faz com que os professores se dispersem nos corredores e no estacionamento falando alto demais, como bêbados cada vez mais excitados. Os professores caem na farra quando não estão na escola. Alguns têm as pálpebras avermelhadas, o mau hálito e o corpo inchado daqueles que costumam beber em excesso. Uns são divorciados; outros vivem maritalmente sem ser casados. Fora da escola, levam vidas desorganizadas e libidinosas, sem autodisciplina. São pagos para pregar a virtude dos valores democráticos pelo governo estadual, cuja sede fica em Trenton, e por aquele governo satânico mais longe, em Washington, porém os valores em que acreditam são ímpios: biologia, química, física. Quando se trata dos fatos e fórmulas desses assuntos, suas vozes falsas soam firmes e retumbam na sala de aula. Dizem que tudo provém de átomos cegos e implacáveis, responsáveis pelo peso frio do ferro, a transparência do vidro, a imobilidade da argila, a agitação da carne. Os elétrons fluem por fios de cobre, por portas de computador e pelo próprio ar, quando a interação de gotículas de água provoca relâmpagos. Só é verdade aquilo que podemos medir e deduzir a partir de nossas mensurações. Tudo o mais é apenas o sonho passageiro que chamamos de nosso ser. Ahmad tem dezoito anos. Estamos no início de abril; mais uma vez o verde penetra sorrateiro, semente por semente, nas fendas de terra da cidade cinzenta. Ele olha do patamar de sua altura recém-conquistada e pensa que, para os insetos invisíveis na grama, ele seria, se eles tivessem uma consciência como a sua, Deus. No ano passado Ahmad cresceu sete centímetros, chegando a um metro e oitenta e dois - mais forças materialistas invisíveis a exercer sua vontade sobre ele. Ele não vai crescer mais do que isso, pensa Ahmad, nesta vida nem na outra. Se houver uma outra, um demônio interior murmura. Que provas, além das palavras ardentes e divinamente inspiradas do Profeta, garantem que existe outra vida? Onde ela estaria escondida? Quem estaria eternamente abastecendo as fornalhas do Inferno? Que fonte infinita de energia haveria de manter o Éden opulento, alimentando as huris de olhos negros, fazendo crescer os frutos pesados nas árvores, renovando os riachos e chafarizes em que Deus, conforme a nona sura do Alcorão, eternamente se regozija? E a segunda lei da termodinâmica? As mortes dos insetos e vermes, cujos corpos rapidamente são absorvidos pela terra, o mato e o asfalto da estrada, tentam dizer a Ahmad, demoníacas, que a morte dele será igualmente pequena e definitiva. No caminho da escola, ele percebeu um sinal, uma espiral traçada na calçada em icor luminoso, o visgo angelical do corpo de alguma criatura vil, um verme ou lesma do qual esse vestígio é tudo que resta. Aonde iria essa criatura, descrevendo uma espiral centrípeta sem nenhum sentido? Se estava tentando se afastar da calçada quente que a assava viva sob o sol forte, foi um equívoco, e os círculos por ela descritos se revelaram fatais. Porém no centro da espiral não ficou nenhum minúsculo corpo de verme. Então para onde voou aquele corpo? Talvez tivesse sido arrebatado por Deus e levado diretamente para o Céu. O professor de Ahmad, o xeique Rashid, imã da mesquita que fica num sobrado em 27811/2 West Main Street, lhe diz que, segundo a tradição sagrada da Hadith, tais coisas acontecem: o Mensageiro, montado no cavalo alado branco Buraq, foi guiado através dos sete céus pelo anjo Gabriel até um determinado lugar, onde ele rezou com Jesus, Moisés e Abraão antes de voltar à Terra, para se tornar o último dos profetas, o maior de todos. São provas de suas aventuras naquele dia as marcas deixadas pelo casco de Buraq, nítidas e límpidas, no Rochedo sob a Cúpula sagrada no centro de al-Quds, chamada de Jerusalém pelos infiéis e sionistas, cujos tormentos nas fornalhas do Jahannan são bem descritos nas suras de número 7, 11 e 50 do Livro dos Livros. O xeique Rashid recita com uma belíssima pronúncia a sura 104, referente ao Hutama, o Fogo que Consome: E quem te ensinará o que é o Fogo que Consome?  É o fogo de Deus a arder,  Que abrasará os corações dos amaldiçoados.  Em verdade, elevar-se-á sobre eles como uma abóbada,  Em colunas estendidas. Quando Ahmad tenta extrair das imagens do texto em árabe do Alcorão - as colunas estendidas, fe- 'amadin mumaddada, e a abóbada a se elevar acima dos corações da multidão encolhida de terror, tentando enxergar em meio à névoa quente que se estende a perder de vista, na-ru 'l-la-hi 'l-mu-qada - algum indício de que o Misericordioso em algum momento se compadece e faz com que se detenha o Hutama, o imã baixa os olhos, que são de um inesperado tom claro de cinzento, leitosos e esquivos como os de uma mulher africana, e diz que essas descrições visionárias do Profeta têm sentido figurado. Na verdade, elas se referem ao sofrimento ardente de estar separado de Deus e ao ardor do remorso causado por nossos pecados contra Seus mandamentos. Porém Ahmad não gosta da voz do xeique Rashid quando ele diz essas coisas. Ela o faz pensar nas vozes pouco convincentes de seus professores no colégio. Por trás dela Ahmad detecta a voz de Satanás, uma voz que nega dentro da que afirma. O Profeta se referia ao fogo físico quando pregava um fogo inclemente; Maomé proclamou vez após vez a existência factual do fogo eterno. O xeique Rashid não é muito mais velho do que Ahmad - talvez dez anos, talvez vinte. Há poucas rugas na pele branca de seu rosto. Seus gestos são tímidos, ainda que precisos. Nos anos de vida que o separam de Ahmad, o mundo o enfraqueceu. Quando o murmúrio dos demônios interiores transparece na voz do imã, Ahmad sente em seu próprio ser um desejo de levantar-se e esmagá-lo, tal como Deus queimou aquele pobre verme no centro da espiral. A fé do discípulo é maior que a do mestre; o xeique Rashid tem medo de se ver montado no corcel alado branco do islã, a galopar com ímpeto irresistível. Ele tenta suavizar as palavras do Profeta, harmonizá-las com a razão humana, mas elas não foram feitas para isso: são palavras que penetram a nossa frouxidão humana como uma espada. Alá é sublime além de todas as particularidades. Não há outro Deus senão Ele, o Vivo, o Auto-suficiente; Ele é a luz comparada com a qual o sol parece negro. Ele não se harmoniza com a nossa razão, porém obriga nossa razão a se curvar, encostando a fronte no pó e ostentando, tal como Caim, a marca desse pó. Maomé era um mortal, porém ele visitou o Paraíso e conviveu com as realidades que lá existem. Nossos atos e pensamentos foram escritos na consciência do Profeta com letras de ouro, como as palavras candentes feitas de elétrons que o computador cria quando digitamos num teclado. Os corredores do colégio cheiram a perfume e exalações corpóreas, goma de mascar e comida impura do bandejão, e também pano - algodão, lã, os materiais sintéticos dos tênis de corrida, aquecidos por carne jovem. No intervalo entre as aulas explode um trovão de atividade; o ruído recobre como uma membrana fina a violência subjacente, contida por um triz. Às vezes, no momento mais tranqüilo ao término das aulas, quando a barulheira triunfal e irreverente da volta para casa já se extinguiu e apenas os alunos envolvidos em atividades extracurriculares permanecem no prédio enorme, Joryleen Grant aproxima-se de Ahmad, junto a seu armário. Ele participa da equipe de atletismo na primavera; ela canta no coral feminino. Para os padrões da Central High, eles são alunos "bons". A religião dele o afasta das drogas e do vício, mas também o mantém isolado dos colegas e dos estudos curriculares. Ela é baixinha e rechonchuda, e fala bem em aula, agradando os professores. Há uma autoconfiança encantadora no modo compacto como seu corpo rotundo, cor de cacau, preenche suas roupas, que hoje consistem num jeans remendado e enfeitado com aplicações de metal, gasto no trecho que encosta no assento das cadeiras, e um bustiê magenta drapeado, mais decotado e mais curto do que deveria ser. Passadores de plástico azul prendem o cabelo reluzente para trás, esticando-o tanto quanto possível; a borda gorducha da orelha direita ostenta em sua dobra uma fileira de minúsculos brincos de prata. Ela canta em eventos comemorativos, canções sobre Jesus ou anseio sexual, dois temas que Ahmad julga abomináveis. No entanto, agrada-o constatar que ela repara nele, aproximando-se do rapaz de vez em quando como uma língua que testa um dente dolorido. "Se anima, Ahmad", ela o provoca. "As coisas não podem estar tão ruins assim." Ela levanta o ombro seminu, para indicar que está falando de brincadeira. "Não estão ruins, não", diz ele. "Eu não estou triste." Seu corpo alongado está pinicando sob as roupas - camisa branca, jeans preto justo - por causa da chuveirada que ele tomou depois da educação física. "Você está com uma cara muito séria", ela insiste. "Você devia aprender a sorrir mais." "Por quê? Por que é que eu devia, Joryleen?" "As pessoas vão gostar mais de você." "Isso não me interessa. Não quero que gostem de mim." "Interessa, sim", ela retruca. "Todo mundo se interessa." "Você é que se interessa", diz ele, olhando para ela com desdém do alto de seu corpo recém-espichado. O volume dos seios aparece, como duas bolhas enormes, pelo decote do bustiê indecente que, na outra extremidade, expõe o ventre gordo e o umbigo profundo. Ele imagina aquele corpo liso, mais escuro que caramelo porém mais pálido que chocolate, assando naquelas chamas eternas, coberto de bolhas; estremece de piedade, pois ela está tentando ser simpática com ele, de acordo com a concepção que tem de si própria. "Miss Simpatia", diz ele, debochado. O comentário a magoa, e ela se afasta, empurrando os livros pesados que leva para casa contra os seios, aprofundando a fenda entre eles. "Vá tomar no cu, Ahmad", diz, ainda com um toque de ternura incerta; o lábio inferior, macio e pesado, está um pouco caído. A saliva nas gengivas reflete a luz das lâmpadas florescentes no teto, que mantêm o corredor iluminado e seguro. Para salvar aquele encontro, embora tenha se virado para encerrá-lo, Joryleen acrescenta: "Se não estivesse interessado, você não ia fazer questão de usar uma camisa branca limpa todo dia, como se fosse um pastor. Como é que a sua mãe agüenta passar tanta roupa?". Ele não se dá o trabalho de explicar que aquela roupa cuidadosamente escolhida significa que ele é um não-combatente, evitando tanto o azul, a cor dos Rebels, a gangue de afro-americanos da Central High, quanto o vermelho, que é sempre usado, mesmo que apenas num cinto ou numa faixa na testa, pelos Diabolos, a gangue hispânica. Também não lhe diz que sua mãe raramente passa roupa, pois é auxiliar de enfermagem no Saint Francis Community Hospital e pintora nas horas vagas, e só vê o filho menos de uma hora por dia. As camisas dele são entregues dobradas e envoltas em um papelão pela tinturaria, cuja conta ele paga com o dinheiro que ganha trabalhando como balconista na Shop-a-Sec da Tenth Street duas noites por semana, nos fins de semana e nos feriados cristãos, quando a maioria dos meninos de sua idade está na rua se metendo em encrencas. Porém, ele sabe, há vaidade em seu traje, uma exibição que ofende a pureza do Senhor do Universo. Ahmad percebe que Joryleen não está apenas tentando ser simpática: ele desperta sua curiosidade. A moça quer se aproximar dele para cheirá-lo mais de perto, muito embora já tenha um namorado com fama de "mau". As mulheres são animais fáceis de domesticar, o xeique Rashid já alertou Ahmad, e ele vê com os próprios olhos que no colégio e no mundo maior fora dele as pessoas estão o tempo todo se afocinhando - animais cegos numa manada, esbarrando uns nos outros, procurando por um cheiro que os conforte. Mas o Alcorão afirma que só há conforto para aqueles que acreditam no Paraíso invisível e que observam o mandamento de rezar cinco vezes por dia, que o Profeta trouxe para a Terra depois da viagem noturna montado no dorso largo de Buraq, o corcel de alvura resplandecente. Joryleen continua parada ali, perto demais dele. Seu perfume perturba as narinas do rapaz; a fenda entre seus seios o incomoda. Ela muda de posição os livros pesados que leva nos braços. Ahmad lê na borda do volume mais grosso as palavras traçadas a esferográfica: JORYLEEN GRANT. Os lábios da garota, pintados com um batom de um tom metálico e luminoso de rosa para parecerem mais finos, o surpreendem por exprimir constrangimento. "O que eu queria perguntar a você", ela consegue dizer, com tanta hesitação que ele é obrigado a abaixar-se para ouvi-la melhor, "era se você está a fim de ir lá na igreja neste domingo para me ouvir dar um solo no coral." Ele fica chocado, sente repulsa. "Não sou da mesma fé que você", responde, sisudo. Ela retruca num tom leve, indiferente. "Ah, eu não levo essas coisas muito a sério, não. Eu quero mais é cantar." "Agora você realmente conseguiu me fazer ficar triste, Joryleen", diz Ahmad. "Se você não leva a sua religião a sério, não devia ir lá." Ele fecha a porta do armário com força, movido por uma raiva dirigida mais contra si próprio, por ter rejeitado e censurado a garota quando, ao fazer um convite, ela estava mais vulnerável. O rosto vermelho de vergonha, Ahmad vira-se para Joryleen, para ver o mal que fez, e constata que ela está indo embora, exibindo com a maior tranqüilidade as aplicações metálicas nos fundilhos do jeans. O mundo é difícil, pensa ele, porque está cheio de demônios sempre a confundir as coisas e entortar o que é reto.

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